Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema!

26.1.06

O Cinema Fantástico


Parte 5: A Consagração de Peter Jackson


Em 1986, Sigourney Weaver foi indicada como melhor atriz por "Aliens - O Resgate", continuação de James Cameron de "Aliens - O Oitavo Passageiro", que ela mesma havia estrelado e sido esquecida para o prêmio. A fita concorreu a 6 OSCARs e no final só levou os óbvios Efeitos Sonoros e Visuais. Depois nenhum filme de fantasia foi indicado nesta década.

Curiosamente, foi nesse mesmo período que surgiu o filme de terror que mais levou OSCARs, "O Silêncio dos Inocentes". O filme de Jonathan Demme que imortalizou o cruel e impiedoso Hannibal "Canibal" Lecter, ganhou 5 OSCARs e justamente os mais importantes: Filme, Diretor, Ator (Anthony Hopkins), Atriz (Jodie Foster) e Roteiro adaptado. Embora hoje seja classificado como terror, na época as pessoas não tiveram essa percepção. Não sabiam como identificá-lo, já que de certa forma criava um genero novo. Talvez por isso ganhou.

Os anos 90 chegaram e infelizmente os filmes de fantasia não os acompanharam devidamente. Os filmes de terror eram raros e de certa forma os de ficção também. Nesse período, somente "Ghost - Do outro Lado da Vida" e "A Bela e a Fera", tiveram indicações. O Primeiro ganhou coadjuvante para Whoopi Goldberg e roteiro original e o segundo foi o primeiro desenho animado da história do cinema a ser indicado na categoria principal. Logicamente filmes importantes apareceram, como "Drácula de Bram Stoker" de Coppola e a revolução digital "O Exterminador do Futuro 2" e "Jurassic Park", onde Spielberg mostrou que os dinossauros não estavam tão extintos como pensávamos.

Os filmes de fantasia voltaram à moda em 1996, graças ao sucesso de "Independence Day", sobre uma invasão alienígena e "Pânico" onde se brincava com os clichês dos filmes de terror. O auge da década foi em 1999. Onde Stephen Sommers recriou um clássico monstro da Universal em "A Múmia", George Lucas voltou à sua ópera espacial em "Guerra nas Estrelas: Episódio I - A Ameaça Fantasma", os irmãos Wachowski surpreenderam o mundo com "Matrix" numa mistura de ficção e kung-fu e M. Night Shyamalan com seu garoto que vê gente morta em "O Sexto Sentido".

O novo milênio chegou e os filmes de fantasia continuam com seus altos e baixos. A trilogia de J. R. Tolkien, "O Senhor dos Anéis", tida como obra literária máxima da fantasia, finalmente foi para os cinemas. A primeira parte, "A Sociedade do Anel" recebeu 13 indicações e só ganhou 4: Fotografia, maquiagem, efeitos especiais e trilha musical. Novamente levou apenas os técnicos. A segunda parte , "As Duas Torres" recebeu 6 indicações sendo muito boicotada em algumas categorias (como Maquiagem por exemplo, que insistiu que o filme já havia sido premiado anteriormente, o que naturalmente é um absurdo!), dois quais só ganhou 2: Edição de Som e Efeitos Especiais.

E finalmente, depois de 75 anos de premiação, a consagração! Sucesso de crítica e público, "O Retorno do Rei" recebeu 11 indicações e ganhou todos os Oscars pelo qual foi indicado: Filme, Direção, Roteiro Adaptado, Trilha Musical, Canção, Montagem, Som, Maquiagem, Efeitos Especiais, Direção de Arte e Figurino. Igualou-se a "Titanic" e "Ben-Hur" no recorde de prêmios da cerimônia. Foi o primeiro filme de fantasia da história do cinema a ganhar um OSCAR de melhor filme e bateu o recorde de "O Último Imperador" no aproveitamento de indicações. (O filme de Bertollucci havia sido indicado em 9 categorias e ganho em todas). Têm mais: Das 30 indicações que a trilogia recebeu, levou 17 OSCARS, batendo o recorde que era da trilogia "O Poderoso Chefão". Levou 3 OSCARS consecutivos de Efeitos Especiais (!) e foi a primeira vez, no OSCAR, que uma terceira parte ganhou. No fundo, com todos os méritos e justiça.

Apesar dos constantes sucessos de público e crítica, como foi comprovado ao longo destes posts, isso não quer dizer que o gênero esteja sendo reconhecido pela Academia. Muitos chegaram a ser indicados, mas poucos foram os prêmios, mesmo com a incontestável qualidade de certas obras. A postura da Academia permanece extremamente conservadora a este respeito. O que existe mesmo, é uma preferência por filmes dramáticos convencionais, talvez porque a grande maioria dos votantes sejam atores, que preferem grandes conflitos dramáticos em grandes personagens ao invés de efeitos visuais. Resta aos fãs continuar a apreciar e amar seus filmes de fantasia e esperar que um dia a Academia largue sua postura ultrapassada e passe a amá-los também...



25.1.06

O Cinema Fantástico


Parte 4: A Saga de Indiana Jones


Seguiu-se uma onda de filmes espaciais influenciada pelo sucesso de "Guerra nas Estrelas", vimos Ridley Scott criar o terror em "Alien - O Oitavo Passageiro" (1979), onde, "no espaço, ninguém ouvirá seu grito"; Robert Wise guiando a primeira aventura da Enterprise no cinema em "Jornada nas Estrelas - O Filme" e até mesmo o agente britânico 007 se aventurar na gravidade zero em "007 contra o foguete da morte".

Logo no ínicio da década de 80, George Lucas nos deu a continuação de Guerra nas Estrelas em "O Império Contra-Ataca". O filme é considerado até hoje o melhor da série pela imensa legião de fãs. Concorreu a 3 OSCARs, levando apenas um (som). Na mesma época Lucas e Spielberg se juntaram e acabaram contando uma das maiores aventuras da história do cinema, "Os Caçadores da Arca Perdida" em 1981. Spielberg fez do arqueólogo uma referência de aventura, um herói meio desajeitado e impulsivo, sempre perseguido por vilões marcantes e solto em meio a situações inusitadas geralmente envolvendo misticismo. Concorreu a 8 prêmios, mas novamente esnobaram Spielberg e o filme venceu 4 OSCARs técnicos. Indy não pareceu ter fôlego para encarar os atletas olímpicos de "Carruagens de Fogo".

"ET - O Extra-Terrestre" conquistou multidões em 1982 e se tornou recordista absoluto de bilheteria por muitos anos. Foi indicado a 9 OSCARs e levou 4, novamente só o técnicos. Na mesma ocasião, o filme cult por excelência "Blade Runner - O Caçador de Andróides", "Tron - Uma Odisséia Eletrônica" e "Poltergeist" concorreram a prêmios técnicos. E não ganharam. Preconceito? Sei...

Em 1983, George Lucas lançou seu terceiro capítulo de Guerra nas Estrelas, "O Retorno de Jedi". Suas qualidades técnicas foram reconhecidas com 4 indicações na mesma época em que Wes Craven criava um novo grande ícone do terror, o deformado Freddy Krueger e Joe Dante infestava uma cidadezinha com um exercito de "Gremilins" e o assassino Jason encontrava sua primeira morte em "Sexta-Feira 13 - parte IV"

A época estava ótima para filmes de fantasia, como se pode perceber, surgiram "O Feitiço de Áquila", sobre o amor amaldiçoado de um casal, "O Enigma da Pirâmide", sobre as aventuras de um jovem Sherlock Holmes, "Cocoon", sobre aamizade entre velhinhos e alienígenas e também "De Volta para o Futuro" que foi indicado 4 categorias, mas não levou nenhum troféu. Não está se tornando cansativo? Mas estamos tentando provar o preconceito de forma indiscutível.



24.1.06

O Cinema Fantástico


Parte 3: Spielberg e George Lucas


Os anos 70 estavam com tudo, novos cineastas estavam ganhando atenção, como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Brian de Palma, e esse período é considerado opor muitos o mais importante do cinema norte-americano depois do fim da "Era dos Estúdios". Também foi a época que surgiu outro jovem cineasta chamado Steven Spielberg, que em 1971 havia feito uma pequena jóia: "Encurralado", em que um motorista é aterrorizado por um caminhoneiro em uma emocionante perseguição, e que em 1975 iniciou a era dos filmes de verão, os grandes blockbusters, com "Tubarão".

"Tubarão" era um filme relativamente simples, com a fera que aterrorizava inocentes banhistas, e isso deixou muita gente sem entrar na água naquele verão. A imaginação de Spielberg fez do filme um sucesso, aonde o monstro quase não aparecia, era, na verdade apenas sugerido pelos movimentos de câmera e pela trilha sonora de John Willians. Teve 4 indicações: Filme, Trilha Musical, montagem e som e levou apenas os três prêmios técnicos. O tubarão de borracha não foi bom o suficiente para derrotasr Jack Nicholson e seus colegas de sanatório em "Um Estranho no Ninho".

Em 1976, Sissy Spacek e Piper Laurie foram indicadas por seus trabalhos como coadjuvantes em "Carrie - A Estranha", cult clássico de Brian de Palma adaptado de um conto de Stephen King. Nenhuma das duas ganhou.

Em 1977, estreiou um filme conhecido até então como "Guerra nas Estrelas", obra de outro jovem diretor, George Lucas. O filme trazia algo diferente, era uma grande aventura recheada de personagens exóticos e incrivelmente carismáticos, situados em um universo bem rico, repleto de intrigas shakespearianas. Seus efeitos especiais também eram revolucionários e com certeza tiveram grande influência sobre o público que lotou os cinemas. Recebeu 10 indicações, incluindo filme, diretor, roteiro original e ator coadjuvante, e somente nessas 4 categorias não venceu. O poderoso Darth Vader foi vencido por Woody Allen e seu "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa".

Na mesma cerimônia em que "Guerra nas Estrelas" concorreu, aquele mesmo Spielberg, também teve um filme concorrendo ao OSCAR, oito para ser mais exato. Era "Contatos Imediatos de Terceiro Grau", e teve um destino mais triste, só levando fotografia. Coisas interessantes ainda aconteciam fora do OSCAR. O diretor John Carpenter criou, com o filme "Halloween", o assassino Michael Myers, e uma legião de serial killers imitadores ficaram à solta ao mesmo tempo em que outro realizador, Richard Donner, mostrava que um homem podia voar em "Superman".




O Cinema Fantástico


Parte 2: A Era Hitchcock, os filmes B e "O Exorcista"


Muito bem, relembramos grandes filmes, mas nada de OSCAR até agora, certo? Na verdade, alguns filmes de fantasia conseguiram ser premiados, mas geralmente em categorias técnicas como som ou efeitos especiais ("O Fantasma da Opera" e "A Guerra dos Mundos"), e muitos achavam que era o máximo que o gênero poderia conseguir. Não havia um ator ou diretor de filmes dramáticos que migrasse para um filme de terror ou ficção e que recebesse reconhecimento. Até mesmo o mestre do suspense, Alfred Hitchcock. Antes disso, deixem-me fazer um parêntese. Os americanos usam um termo para definir o filme dito thriller (vem de "to thrill", emocionar, provocar emoções, ou seja, é um filme que provoca emoções fortes, até arrepios, se for o caso). Na falta de melhor nome, usa-se no Brasil o termo suspense, que é realmente outra coisa. Era Hitchcock quem fazia a definição. O filme é de mistério policial quando há um assassinato e você acompanha a investigação, até a revelação final, sabendo das mesmas informações que os personagens. É suspense quando o espectador sabe mais que os personagens. Ele vê o criminoso e fica torcendo, aflito, nervoso com o que sabe que vai acontecer e não tem como impedir. Isso sim é que é suspense e era o que Hitchcock sabia fazer melhor. E nem por isso foi reconhecido pela Academia.

Hitchcock já havia recebido 3 indicações como diretor por "Um Barco e Nove Destinos", "Quando Fala o Coração" e "Janela Indiscreta", filmes que seriam mais de suspense do que outra coisa. Recebeu sua quarta indicação graças ao seu grande trabalho no impecável "Psicose" que se tornou um de seus filmes mais famosos. Vejam só: o Norman Bates foi o primeiro grande serial killer do cinema. Ele tinha estilo, vestia-se de mulher, falava com sua mãe morta e empalhada, morava em uma casa sinistra e ainda por cima é protagonista de uma das mais famosas cenas do cinema, aquela mesma que você está pensando, quando o incoveniente manda Janet Leigh para o além em pleno banho. Quebrando uma regra básica de nunca matar a atriz principal até o fim do filme, Hitchcock se livra de Janet antes da metade da fita !

Apesar de todas as qualidades, "Psicose" foi ignorado pela Academia. Hitchcock perdeu o prêmio de direção para Billy Wilder, ("Se Meu Apartamento Falasse") e nunca levou um OSCAR para casa, falha que a Academia tentou consertar mais tarde entregando um premio pelo conjunto da obra. Além disso o filme perdeu nas outras 3 indicações, inclusive na de Janet Leigh com coadjuvante, além de fotografia e direção de arte em preto e branco.

As coisas seguiram seu rumo, os filmes continuaram a sair, mas apesar do surgimento de promissores nomes como os do italiano Dario Argento e de George A. Romero (aquele dos zumbies) e Roger Corman (especialista em fitas B), os filmes de horror e fantasia voltaram ao segundo escalão, filmes B, cultuados por jovens em busca de fuga do lugar-comum, subversão ou apenas novas idéias. Mas as coisas mudaram em 1969, quando Stanley Kubrick, o já respeitado diretor de "Spartacus" e "Lolita", lançou sua grande obra-prima: "2001 - Uma Odisséia no Espaço". Era uma espetacular aventura visual, um drama sobre a busca de algo superior, tinha um conceito à frente de seu tempo e mostrou HAL-9000, o computador mais humano de que se tem notícia. O filme quebrou barreiras. Além do aspecto dramático, foi uma ficção séria feita por um cineatas sério, não era mais uma fita sobre calotas presas por arames como discos voadores invadindo a Terra., era algo perfeitamente tangível, que colocou o homem no espaço antes mesmo de nossa primeira viagem à Lua e revolucionou muita coisa adiante.

Novamente a inovação não surtiu efeito. "2001" foi indicado aos OSCARs de melhor roteiro, direção de arte, direção e efeitos especiais e só venceu nesta última categoria, técnica, na época sem tanto glamour quanto as outras. Em 1972, nova injustiça: "Laranja Mecânica, um filme polêmico, alegórico, que previu o crescimento descontrolado da violência e tentativas desesperadas de contê-la, recebeu indicações de melhor roteiro, direção, montagem e filme, mas Popeye Doyle e Buddy Russo atropelaram o jovem que só se interessa em estupro, ultraviolência e Beethoven quando "Operação França", o filme violento, mas "realístico", de William Friedkin, ficou com todos esses prêmios.

Vejam só o padrão e o preconceito que se criou. O mesmo Friedkin, que conseguiu ganhar um OSCAR com um filme dramático, não o consegiu, dois anos depois com "O Exorcista" que foi um sucesso enorme de público, que desmaiava e gritava nos cinemas ao ver uma garotinha vomitar gosma verde, e surpreendentemente de crítica, o que levou a dez indicações e apenas dois prêmios: som e roteiro, embora tenha revolucionado o gênero e pela primeira vez tenha dado status de classe A para o terror explícito, com vômito verde, diabo falando palavrões e tudo. Numa frase: O terror ganhou respeito porque passou a dar lucro. E em Hollywood, o dinheiro manda. Aliás, não só lá.



22.1.06

O Cinema Fantástico


Parte 1: Do cinema expressionista aos monstros da Universal


Os fãs dos filmes de ficção científica, horror e outros temas fantásticos podem ficar horas e horas discutindo com amigos o quanto George Lucas errou ao colocar Greedo atirando primeiro contra Han Solo em "Star Wars", como Data é o único androíde do universo que ganha rugas em "Jornadas nas Estrelas ou como Michael Myers, o assassino de "Halloween" pode ter sido criado por um culto - digno de mitologia paranóica de "Arquivo X", como foi explicado em suas incontáveis continuações. Tentar traçar um paralelo entre o sucesso de muitos deles e seu reconhecimento entre os críticos é ainda mais interessante, principalmente em relação ao OSCAR, quando em raríssimas ocasiões eles foram homenageados com os prêmios principais.

Vamos começar bem pelo começo. A primeira cerimônia do OSCAR, foi em 1929 e o grande vencedor foi "Asas", um filme que cá entre nós não tem nada de fantástico. Naquela altura já haviam sido lançadas pelo menos duas obras-primas da Fantasia: "Nosferatu", com sua cenografia gótica e visual sómbrio e inovador, e "Metropolis", que utilizava uma luta entre classes sociais. Sem falar em todo o resto do cinema expressionista alemão, inclusive "O Gabinete do Dr. Caligari", "O Golem", "Fausto", todos filmes que se enquadram perfeitamente dentro do gênero e são obras-primas reconhecidas no cinema.

A coisa começou a ficar feia nos anos seguintes, como por exemplo em 1933, com "King Kong", na clássica história do macaco gigante que revolucionou o uso de efeitos especiais com um enredo levemente inspirado em "A Bela e a Fera". Infelizmente isso não foi suficiente para que Kong ganhasse nem mesmo uma indicação da Academia, ainda que hoje seja considerado outra obra-prima de aventura e efeitos. Na mesma época, a Universal faturava alto com vários filmes de monstros, como aqueles inesquecíveis de Boris Karloff, como "A Múmia" e "Frankestein", ou bela Lugosi como "Drácula". Eram criaturas terrivelmente charmosas, baseadas em conceitos simples como monstros das profundezas, mortos que voltam à vida, homens que viram aberrações, resumindo, medos e mitos que seguem o homem desde o ínicio de sua existência. Ainda assim, com tanto sucesso, os filmes de terror ainda eram considerados filmes B.

Os filmes de monstros continuaram a fazer sucesso nos anos 40, como "Lobisomem" e "O Fantasma da Ópera". Mas o que realmente explodiram foram os filmes de ficção cintífica, com um interesse renovado do público depois da Segunda Guerra e sua evolução tecnológica. Esse fervor fez com que o início da década de 50 se tornasse importante para os aficionados, já que vários clássicos surgiram no período como "O Homem do Planeta X", "A Guerra dos Mundos", "Veio do Espaço", "O Monstro do Mar Revolto" (com efeitos especiais quadro-a-quadro), o japonês "Godzilla", "Vampiros de Almas" e "A Invasão dos Discos Voadores". Foi um período muito fértil para discos voadores, invasões alienígenas e homens do espaço. Mas não para OSCARs. E também criando um mito errado de que filme B era filme ruim, estilo "Ed Wood", para se debochar ou rir; curtir talvez, mas junto com o filme, nunca o filme.

Mas os fãs de terror nunca foram abandonados; havia os filmes de Willian Castle e os da American-International, mas realmente marcante foi uma pequena revolução que estava para acontecer, direto da Inglaterra, sob o nome de Hammer Films. Foi em 1957, quando filmaram "A Maldição de Frankestein, uma releitura totalmente diferente da imagem criada pela antiga Universal. O filme era mais ágil, mais sombrio, com elementos chocantes, e tornou mundialmente famosos os nomes do estúdio e de seus protagonistas, um certo senhor chamado Christopher Lee e outro chamado Peter Cushing, que repetiram a dupla em outros filmes de igual sucesso em particular "O Vampiro da Noite" de 1958.



18.1.06

Clássico inglês vira caricatura nas telas em "Feira das Vaidades"


Dizem que o escritor britânico nascido em Calcutá William Makepeace Thackeray (1811-1863) inventou a palavra "snob" (esnobe, em português).

A autoria é discutida, pois há quem diga que o termo é mais antigo e seria derivado da expressão em latim "sine nobilitate" (sem nobreza), enquanto o dicionário Oxford registra seu uso no começo do século 19, na Inglaterra, designando alpinistas sociais que faziam de tudo para integrar a elite.

O certo é que essa segunda versão, que segue valendo até nossos dias, teve em Thackeray, autor de "The Book of Snobs" (1846), seu principal divulgador. Ironizar a sociedade inglesa em que aristocratas decadentes e burgueses em ascensão disputavam poder e prestígio tornou-se sua principal obsessão. "Feira das Vaidades", baseado no livro homônimo, é uma transposição um tanto convencional para as telas do estilo satírico que consagrou o escritor. Com direção da indiana Mira Nair, conta a saga de Becky Sharp (Reese Witherspoon), uma órfã em sua busca insaciável por uma posição social e uma vida de luxo.

Até hoje, a adaptação cinematográfica mais conhecida de uma obra de Thackeray havia sido "Barry Lyndon", pelas mãos do genial Stanley Kubrick (1928-1999). Ainda que este seja considerado um dos filmes menores do cineasta inglês, "Barry Lyndon" é incontestavelmente superior à "Feira das Vaidades" -excessivamente televisivo e caricato.

Becky manipula desejos masculinos, carências de solteironas ricas, não dá a mínima para o filho pequeno e casa-se por conveniência. Ainda sendo a vilã da história, o público é levado a torcer por ela, tamanha a crueldade e a futilidade daqueles contra quem ela luta. Aos moldes de outra anti-heroína célebre da literatura britânica, a bandida que protagoniza "Moll Flanders" (1722), de Daniel Defoe, Becky é encantadora e inteligente, e ninguém quer que ela sucumba.

O fato de ser estrangeira dá a Nair a possibilidade de ser pouco complacente aos modos e costumes ingleses. O filme ainda explora a maneira preconceituosa como os britânicos olhavam para suas colônias, lugares habitados pelo exótico e pelo selvagem.

Entre as interpretações apenas corretas que predominam no elenco, é de se ressaltar as atuações do veterano Gabriel Byrne -o sombrio marquês de Steyne, que acompanha Becky desde a infância e, ao final, tenta "comprar" sua alma- e a da atriz Eileen Atkins, que encarna uma avarenta milionária solteirona e idosa de quem a moça se aproxima.

Ideal para matinês ou fãs de reconstituições históricas -a Londres do século 19 está perfeita, apesar de o filme ter sido rodado na cidade de Bath. Para os demais, vale o clichê: prefira o livro.

Por Sylvia Colombo - Folhateen


17.1.06

Tudo em Família, um típico "filme de arte" americano


Não existe exemplar mais ípico do "cinema americano de qualidade" do que este Tudo em Família, de Thomas Bezucha. Vamos explicar. Eles ganham um monte de dinheiro com filmes de mentalidade adolescente, com os quais preenchem seu mercado interno e entopem os do resto do mundo. Mas, na hora do vamos ver, nem mesmo a elite da indústria leva a sério esse tipo de filmes, conduzidos mais pelos efeitos especiais do que por um enredo inteligente, sensível e interpretado por atores de verdade. Aliás, os protagonistas dos arrasa-quarteirões hoje são digitais. E assim, por um efeito de compensação, aparecem filmes como Tudo em Família, com bons atores, bom texto, e, sobretudo, boas intenções.

Pois é dessa qualidade que se trata nessa comédia romântica com pingos de drama. Além da mistura de gêneros, ele conta com uma atriz tão querida como Diane Keaton, e outra tão cult como Sarah Jessica Parker. Sarah faz Meredith, um poço de rigidez em forma de executiva bem-sucedida, que se torna noiva de Evereth, o filho mais velho da família Stone. Ele leva a noiva para passar as festas de fim de ano na casa da matriarca e futura sogra, Sybil Stone (Diane Keaton).

Temos aqui o desfile habitual de protótipos, numa trama de armação teatral. A mulher rígida versus a mulher flexível. As peripécias amorosas que correm ao lado ou sob a superfície de uma reunião familiar. Um drama que ninguém espera e vai explodir em meio à trama romântica. Os elementos politicamente obrigatórios, como a presença gay e de personagens negros. Enfim, o coquetel de qualidades que compõem a a América tolerante, crítica, saudável, que não votou em Bush e sabe que existe um mundo lá fora, talvez habitado por seres humanos dignos de atenção.

Até por isso o filme não deixa de ser simpático, embora caia muito pela previsibilidade. Eleita como bode expiatório, Meredith, a personagem de Sarah Jessica Parker, será a única a apresentar uma curva dramática perceptível. E mesmo esta é abrupta demais e resolvida de modo artificial. Não convence.

Enfim, "Tudo em Família", apesar da roupagem "artística" nunca alça vôo ou vai além do convencional. É apenas mais um filme sobre as reuniões familiares, nas quais se ajustam contas pendentes e no fim tudo se resolve. Um dia, um diretor chamado Mario Monicelli andou por esse terreno e fez um filme chamado "Parente É Serpente". Veneno puro. Mas Monicelli é de outro departamento. De uma cultura mais antiga, digamos assim.

Por Luiz Zannin Oricchio - Estado de São Paulo