Sem-Floresta, mas cheios de encanto
Inteligente e bem executado, novo desenho da DreamWorks faz crítica da alienação e consumismo em versão para crianças

Em 1969, Michelangelo Antonioni fez nos EUA um de seus filmes mais polêmicos - Zabriskie Point, sobre a juventude contestadora que na época ainda pregava o binômio paz e amor. A censura do regime militar no Brasil implicou especialmente com uma cena, que levou o filme a ser proibido. É aquela em que a alienação dos jovens virava ímpeto revolucionário - a explosão do refrigerador, encarado como símbolo de uma sociedade massificada e consumista. As crianças não poderão fazer esta ponte e é possível que a maioria dos adultos também não a faça, mas não há como não pensar em Zabriskie Point quando o guaxinim e seus amigos conseguem penetrar na casa de Os Sem-Floresta e ele lhes aponta aquele monumento - o refrigerador. Aberta a porta, é um mundo de guloseimas que se oferece aos personagens da nova animação da DreamWorks. Oferece e desoferece, porque a busca por comida se revela um pesadelo no novo trabalho de Tim Johnson, o diretor de FormiguinhaZ.
Escritas por Michael Fry e ilustradas por T. Lewis, as tiras de Over the Hedge (Os Sem-Floresta) surgiram em 1995 e, nestes 11 anos, formaram um público cativo nos muitos países em que são publicadas. Como Fry gosta de dizer sobre seus personagens: "Eles comem para viver; nós vivemos para comer. Eles pegam aquilo que precisam e usam o que pegam; nós pegamos o que queremos e depois não queremos mais. Na verdade, nós, os humanos, somos as criaturas mais esquisitas da Terra." A crítica da alienação e do consumismo que já estava em Antonioni volta agora em versão para crianças, mas com atrativos suficientes para intrigar e despertar o espírito crítico dos adultos. Na abertura de Os Sem-Floresta, o guaxinim, R.J., coloca sua moeda numa máquina, mas o esperado saquinho de batatas permanece preso na engrenagem. Ele tenta de tudo, sem conseguir soltá-lo. Em desespero, sobe numa ribanceira, de onde pretende provocar alguma espécie de hecatombe. Descobre a toca de um urso cheia de comida. O urso está em hibernação. R.J. prepara o botim, e já está quase saindo com toda a comida lá dentro quando descobre que deixou as suas batatinhas favoritas. Volta e é fatal. O urso acorda, ocorre um acidente que destrói toda a comida e J.R. ganha o prazo de uma semana para restituí-la, senão...
Corte agora para o jabuti Verne, que está despertando de um longo inverno em companhia dos amigos - o esquilo aloprado Hammy, a gambá Estela e uma família de porcos-espinhos. Sua primeira providência, mal abrem os olhos e saem da toca, é iniciar a busca da comida para o próximo inverno. Revelam-se tão laboriosos quanto as formiguinhas da animação anterior de Johnson. Mas o grupo descobre que perdeu sua floresta, que deu lugar a um condomínio cercado por altos muros. Entra em cena R.J. para convencer os despreparados e tolos seguidores de Verne de que devem entrar no condomínio e assaltar a geladeira dos ricos. O grupo aceita fazer isso para ter o que comer (e sobreviver). R.J., para salvar a pele - vai dar a comida ao urso. Só que o condomínio é fechado, protegido por todo tipo de engenhoca de vigilância, incluindo um agente de maus bofes, e a dona da casa escolhida também não é nem um pouco amigável. E começa o pesadelo.
Nos últimos anos, a Pixar, com Toy Story e Procurando Nemo, e a DreamWorks, com Shrek, têm sido as grandes renovadoras da animação americana. É possível e até preciso acrescentar uma terceira perna, a da empresa de Chris Wedges e Carlos Saldanha, que produziu A Era do Gelo e A Era do Gelo 2. Este último está chegando nos próximos dias ao mercado de DVD. É delicioso, mas não mais do que Os Sem-Floresta. O segredo da nova animação de Tim Johnson, escrita por Karey Kirkpatrick, está no fato de que ela explora o medo dos animais indefesos e, por meio dele, expõe as fantasias infantis diante das regras impostas pelo mundo adulto. A identificação das crianças é imediata - devolvida, em forma de espelho que reflete a capacidade de Johnson e Kirkpatrick de falarem também para o público adulto.
O resultado é ótimo, mesmo que a defesa da família, no desfecho, assuma contornos demasiado sentimentais - mas eles sempre fizeram parte do universo da animação, de Disney a John Lasseter, o diretor de Carros, que também está em exibição nos cinemas brasileiros. Duas animações classe A para as férias escolares. O filme é muito legal, mas sua empatia vem dos bichos. Se você espera um novo Madagascar, vai ver que Os Sem-Floresta propõe outra coisa. A animação é crítica e fornece o que o diretor Johnson define como "comentário irônico sobre a sociedade de consumo". E nada é forçado - isso faz parte do contexto da história. Tudo é muito inteligente e bem executado, mas a empatia do filme vem da qualidade dos animais. O guaxinim, o jabuti, a gambá e seu namorado, o gato persa que habita a casa - a eliminação das diferenças é tema obrigatório de toda boa animação atual -, são todos divertidos. Animados, sem trocadilho, por esses heróis, o novo desenho da DreamWorks decola para seduzir. Sua arma é ser, acima de tudo, encantador.
Por Luiz Carlos Merten - Estado de São Paulo
posted by Marfil at 7:37 AM