Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema!

11.7.06

Sem-Floresta, mas cheios de encanto


Inteligente e bem executado, novo desenho da DreamWorks faz crítica da alienação e consumismo em versão para crianças


Em 1969, Michelangelo Antonioni fez nos EUA um de seus filmes mais polêmicos - Zabriskie Point, sobre a juventude contestadora que na época ainda pregava o binômio paz e amor. A censura do regime militar no Brasil implicou especialmente com uma cena, que levou o filme a ser proibido. É aquela em que a alienação dos jovens virava ímpeto revolucionário - a explosão do refrigerador, encarado como símbolo de uma sociedade massificada e consumista. As crianças não poderão fazer esta ponte e é possível que a maioria dos adultos também não a faça, mas não há como não pensar em Zabriskie Point quando o guaxinim e seus amigos conseguem penetrar na casa de Os Sem-Floresta e ele lhes aponta aquele monumento - o refrigerador. Aberta a porta, é um mundo de guloseimas que se oferece aos personagens da nova animação da DreamWorks. Oferece e desoferece, porque a busca por comida se revela um pesadelo no novo trabalho de Tim Johnson, o diretor de FormiguinhaZ.

Escritas por Michael Fry e ilustradas por T. Lewis, as tiras de Over the Hedge (Os Sem-Floresta) surgiram em 1995 e, nestes 11 anos, formaram um público cativo nos muitos países em que são publicadas. Como Fry gosta de dizer sobre seus personagens: "Eles comem para viver; nós vivemos para comer. Eles pegam aquilo que precisam e usam o que pegam; nós pegamos o que queremos e depois não queremos mais. Na verdade, nós, os humanos, somos as criaturas mais esquisitas da Terra." A crítica da alienação e do consumismo que já estava em Antonioni volta agora em versão para crianças, mas com atrativos suficientes para intrigar e despertar o espírito crítico dos adultos. Na abertura de Os Sem-Floresta, o guaxinim, R.J., coloca sua moeda numa máquina, mas o esperado saquinho de batatas permanece preso na engrenagem. Ele tenta de tudo, sem conseguir soltá-lo. Em desespero, sobe numa ribanceira, de onde pretende provocar alguma espécie de hecatombe. Descobre a toca de um urso cheia de comida. O urso está em hibernação. R.J. prepara o botim, e já está quase saindo com toda a comida lá dentro quando descobre que deixou as suas batatinhas favoritas. Volta e é fatal. O urso acorda, ocorre um acidente que destrói toda a comida e J.R. ganha o prazo de uma semana para restituí-la, senão...

Corte agora para o jabuti Verne, que está despertando de um longo inverno em companhia dos amigos - o esquilo aloprado Hammy, a gambá Estela e uma família de porcos-espinhos. Sua primeira providência, mal abrem os olhos e saem da toca, é iniciar a busca da comida para o próximo inverno. Revelam-se tão laboriosos quanto as formiguinhas da animação anterior de Johnson. Mas o grupo descobre que perdeu sua floresta, que deu lugar a um condomínio cercado por altos muros. Entra em cena R.J. para convencer os despreparados e tolos seguidores de Verne de que devem entrar no condomínio e assaltar a geladeira dos ricos. O grupo aceita fazer isso para ter o que comer (e sobreviver). R.J., para salvar a pele - vai dar a comida ao urso. Só que o condomínio é fechado, protegido por todo tipo de engenhoca de vigilância, incluindo um agente de maus bofes, e a dona da casa escolhida também não é nem um pouco amigável. E começa o pesadelo.

Nos últimos anos, a Pixar, com Toy Story e Procurando Nemo, e a DreamWorks, com Shrek, têm sido as grandes renovadoras da animação americana. É possível e até preciso acrescentar uma terceira perna, a da empresa de Chris Wedges e Carlos Saldanha, que produziu A Era do Gelo e A Era do Gelo 2. Este último está chegando nos próximos dias ao mercado de DVD. É delicioso, mas não mais do que Os Sem-Floresta. O segredo da nova animação de Tim Johnson, escrita por Karey Kirkpatrick, está no fato de que ela explora o medo dos animais indefesos e, por meio dele, expõe as fantasias infantis diante das regras impostas pelo mundo adulto. A identificação das crianças é imediata - devolvida, em forma de espelho que reflete a capacidade de Johnson e Kirkpatrick de falarem também para o público adulto.

O resultado é ótimo, mesmo que a defesa da família, no desfecho, assuma contornos demasiado sentimentais - mas eles sempre fizeram parte do universo da animação, de Disney a John Lasseter, o diretor de Carros, que também está em exibição nos cinemas brasileiros. Duas animações classe A para as férias escolares. O filme é muito legal, mas sua empatia vem dos bichos. Se você espera um novo Madagascar, vai ver que Os Sem-Floresta propõe outra coisa. A animação é crítica e fornece o que o diretor Johnson define como "comentário irônico sobre a sociedade de consumo". E nada é forçado - isso faz parte do contexto da história. Tudo é muito inteligente e bem executado, mas a empatia do filme vem da qualidade dos animais. O guaxinim, o jabuti, a gambá e seu namorado, o gato persa que habita a casa - a eliminação das diferenças é tema obrigatório de toda boa animação atual -, são todos divertidos. Animados, sem trocadilho, por esses heróis, o novo desenho da DreamWorks decola para seduzir. Sua arma é ser, acima de tudo, encantador.

Por Luiz Carlos Merten - Estado de São Paulo