Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema!

3.9.06

Gil Kenan e o terror animado de A Casa Monstro


Diretor que é cria de Spielberg e Zemeckis fala das técnicas que usou para atrair platéias infanto-juvenis


Gil Kenan é um jovem diretor, não tão jovem assim. Já passou dos 30, mas o corpinho continua de 20. Ele acha graça da piada, como se nunca a tivesse ouvido. O repórter do Estado encontra-se com Kenan num resort da Baja Califórnia, onde a Sony reuniu jornalistas para a Cine Fiesta Del Mar, mostrando imagens de sua nova produção, especialmente da nova divisão do estúdio para animação. Kenan conversa com o repórter por causa de A Casa Monstro, que estréia hoje no País, voltado a um público infanto-juvenil que curte o terror e terá agora essa alternativa. Mas o desenho dele não foi feito na divisão de animação da Sony. Foi um projeto paralelo, que chega simultaneamente aos cinemas.

Kenan é cria de Robert Zemeckis e Steven Spielberg. Ele fez, na faculdade, um curta de diplomação que Spielberg e Zemeckis assistiram. Gostaram tanto que o chamaram para assumir A Casa Monstro. A casa assombrada se constitui numa vertente específica do cinema de terror. Existem vários filmes que poderiam ilustrar o que acaba de ser dito, mas Kenan não vacila quando o repórter lhe pergunta se tem alguma preferência ou se algum filme da tendência o marcou mais. "Gosto muito daquele animador francês, o René Laloux, que fez O Planeta Selvagem, mas quem realmente me ajudou em A Casa Monstro foi Hitchcock. A casa de Psicose, aquela casa sinistra e aterradora, foi o modelo da minha casa monstro."

Na trama, garoto fica aos cuidados de uma babá, quando seus pais partem em viagem de férias. O pequeno herói está em pleno rito de passagem para se tornar adulto. Tem um amiguinho que só pensa em se fantasiar para ganhar doces no Halloween. Surge uma garota esperta. O trio investiga essa casa assustadora, que devora as pessoas. A Casa Monstro foi lançado nos EUA e no México em duas versões - 3-D e 2-D. A segunda é a que chega aos cinemas brasileiros. A 3-D é melhor, porque muitos efeitos parecem ter sido feitos para o formato, embora Kenan jure que não.

Ele trabalhou com a técnica chamada de "motion capture", na qual atores, com sensores espalhados pelo corpo, fornecem a base para o movimento dos personagens. O sistema consiste em captar o movimento com a ajuda do computador. Maggie Gyllenhaal forneceu a base para a babá, o que pode ser facilmente identificado. Lembram de Kathleen Turner? A sexy mulher fatal de Corpos Ardentes, de Lawrence Kasdan, virou a mamãe que é de morte, no terror cult de John Walters. Kathleen forneceu a base para a casa. "É uma mulher muito fina e doce que se divertiu bastante fazendo o papel", explica o diretor. Seu tema é o que se ganha (e perde) na passagem para a vida adulta. É o mesmo de Lucas, Um Intruso no Formigueiro, outra animação (da Warner) que estréia em breve. Kenan não se considera um animador, O próximo filme será em live action. "Sou muito jovem para me prender a um formato", diz.

Por Luis Carlos Merten (Estado de São Paulo)



Organizações Tabajara vão parar no tribunal


Novo filme da turma do Casseta, Seus Problemas Acabaram, que chega a 180 salas, usa julgamento para parodiar tudo e todos


Elas estão sob suspeita - as Organizações Tabajara, que formam o maior conglomerado não monopolista do mundo. Onde isso poderia ocorrer? Só num filme do Casseta e Planeta, claro. Estréia hoje a nova produção do grupo de humoristas mais anárquico da TV brasileira. Inicialmente, deveria se chamar só Seus Problemas Acabaram, mas aí alguém deve ter se dado conta de que ele serve para um milhão de filmes e acrescentou o Casseta & Planeta. Agora, sim, você sabe do que se trata. O julgamento das Organizações Tabajara começa em 180 salas de todo o País. Procure seu lugar no tribunal, isto é, na sala, mais próxima de você. A diversão é garantida.

Os problemas, na verdade, estão começando, diz Hélio De La Peña e logo ele, rindo, se corrige - "Não; começaram quando a gente decidiu fazer o filme. Agora espero que esteja começando a solução." Fazer um filme no Brasil é sempre difícil, mas colocá-lo no mercado talvez seja uma dificuldade maior ainda. Bem ou mal, existem as leis de patrocínio que possibilitam a realização dos filmes. O problema é que o cinema brasileiro é estrangeiro na própria casa. O mercado, no País, é formatado para a produção de Hollywood. Nem a marca da Globo, associada a um filme, consegue garantir que ele fará sucesso.

O primeiro filme dos Casseta, A Taça do Mundo É Nossa, fez cerca de 800 mil espectadores nas salas. É um número expressivo - só para comparar, este ano, tirando-se o campeão Se Eu Fosse Você, de Daniel Filho, todos os demais filmes juntos não devem ter dado isso -, mas, face à exposição do grupo na Globo, o resultado foi considerado um fracasso. De La Peña e o próprio diretor José Lavigne explicam - "A gente quis fazer o filme diferente do nosso trabalho na TV", diz De La Peña. O público se ressentiu - no segundo, Lavigne esclarece, "voltamos ao espírito do programa".

Que humor é esse? É o escracho, a paródia. A arte, nada sutil do Casseta e Planeta, consiste em fazer humor em cima dos assuntos do cotidiano. Pode ser a política, o esporte, a novela. Se está em sintonia com o público, o grupo se apropria e escracha. Foram 18 meses escrevendo o roteiro de Casseta & Planeta - Seus Problemas Acabaram. Há, como se diz, uma trama e um formato, o do filme de tribunal, muito freqüente na produção de Hollywood. "Na TV, a gente volta e meia tem um convidado. No filme, usamos o advogado idealista do Murilo Benício para amarrar os esquetes." Pois o humor de Casseta & Planeta - Seus Problemas Acabaram é episódico, bebendo em várias fontes. Você vai identificar elementos de Trainspotting - Sem Limite (o banheiro mais podre da história do cinema), American Pie (as várias sugestões de sexo) e Cidade de Deus.

Em busca de evidências que possam servir no tribunal, Maria Paula, que assessora o advogado Murilo, pergunta e ela própria responde - "Quem sabe das coisas? Os taxistas." Ambos pegam o primeiro táxi e o sujeito diz que, se o filme é nacional, tem de ter problema social. E ruma para a Cidade de Deus, o que possibilita cenas hilariantes que parodiam o filme famoso de Fernando Meirelles. Nada, em Seus Problemas Acabaram, foge às idéias associadas à marca Casseta e Planeta. O humor é escatológico, com freqüência grosseiro, mas não é assim que o público gosta na TV?

De La Peña não cospe no programa, mas prefere o cinema pelo simples fato de que ele pode se desvincular um pouco do imediatismo e da urgência da TV. Pode ser mais elaborado e o humor, mesmo quando envolve improvisação, tem de ser muito bem preparado. A nota triste foi a morte de Bussunda em junho. "Não era só um companheiro de trabalho. Era um amigo, um irmão", define De La Penã. Bussunda participou do roteiro desde a primeira hora. Suas contribuições, além de sua cara, estão na tela. "A gente ia estar muito mais feliz com ele compartilhando este momento", dizem De La Peña e Lavigne.

Por Luis Carlos Merten (Estado de São Paulo)