Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema!

31.10.06

SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

"Vitus" é um filme-família perfeito


A comédia dramática Vitus, do diretor suíço Fredi M. Murer, é um filme-família perfeito.

Não entenda, porém, que esta afirmação é uma observação pejorativa sobre a qualidade da película. Pelo contrário... um ótimo filme do gênero, por mais formulaico e sem invencionices que seja, pode conquistar seu espaço até no coração do mais ranheta dos críticos.

A trama, co-roteirizada pelo cineasta, é curiosa e inteligente, uma história de superação às avessas. Enquanto a maioria mostra pessoas almejando vencer suas limitações pessoais, esta apresenta um menino gênio lutando para ser normal.

Dotado de inteligência muito acima da média, especialmente relacionada ao raciocínio lógico e musical, o menino Vitus parece predestinado a ser um pianista virtuoso. O problema é que, aos seis anos, ele já carrega enormes responsabilidades, como as exaustivas horas de prática diária, a tentativa de adequação, a exigência da mãe obsessiva (Julika Jenkins) e a ausência do pai workaholic (Urs Jucker). Seu único alívio são os fins de semana ao lado do avô marceneiro, homem simples que partilha com o neto a paixão pela aviação e o único que o trata como uma pessoa normal.

Vitus é interpretado por dois atores mirins: Frabrizio Borsani, que o faz aos seis anos, e Teo Gheorghiu, que o vive já com 12 anos de idade. O primeiro é curioso e adorável, o segundo, assombroso em talento e interpretação - especialmente ao piano, já que ele é uma criança prodígio de verdade e foi selecionado para o papel entre alunos de uma famosa escola londrina de música, a Purcell School. Aos 14 anos ele já fala cinco línguas e toca piano desde os nove! Outra prova do talento dos meninos é o bom desempenho quando colocados ao lado do excelente ator suiço Bruno Ganz, ator de Asas do Desejo e A Queda, que vive o avô que sonha em ser piloto. Dividir a tela com um veterano como esse não é pra qualquer um.

O diretor cativa também ao introduzir, lá pela metade, uma guinada na trama que dá uma nova direção ao filme. A idéia da superação que se desenhava fica em segundo plano quando a genialidade do garoto superdotado sofre uma impensada alteração. Dessa forma, Vitus segue cativante até o último quadro, jamais apelando ao choro fácil. Pelo contrário, a emoção chega através da música (a seqüência da orquestra é fenomenal e gravada durante um concerto de verdade) e das surpresas da catarse.

Os 100 minutos de Vitus passam voando, embalados pela simpática lógica inocente do protagonista - que dispara frases como "a bolsa de valores é fantástica, você pode ganhar 1000% de lucro, mas só pode perder no máximo 100%" e faz sensacionais dissertações, como a que enumera as vantagens de se casar com uma mulher 10 anos mais velha.

O filme pode não ser tão genial como seu protagonista, mas certamente é tão adorável quanto.

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    Por Érico Borgo - Omelete


  • 29.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "12:08 A Leste De Bucareste" é um surpreendente trabalho de pormenores


    Os romenos têm muito sobre o que discutir sobre seu passado. País constituído no meio da Europa Oriental por exilados políticos pelo regime do grande império romano, acabaram por criar uma nação um tanto atípica na região - de comportamento mais expansivo (ao modo latino) e idioma originado do latim. Em tempos mais recentes, também, tiveram a política como fator decisivo em seu desenvolvimento: dominados pelo império soviético acabaram por passa pelo infortúnio de terem sido subjugados e governados por um dos mais sangüinários ditadores da história recente: Nicolae Ceausescu. Em "12:08 Leste de Bucareste" o assunto se faz mote e revela a nós que, talvez, o país possa vir a se apoderar dele para discuti-lo por um bom tempo através de seu cinema.

    Mas, diferentemente de nossa vizinha Argentina - que discute seu infortúnio ditatorial em uma de cada três produções -, ao menos nesse filme, o modo de encontrado para sua explicitação vem carregado de uma auto-ironia e humor bruto quase inacreditáveis. Num programa de televisão, meio mambembe, de uma pequena cidade localizada a leste da capital, o assunto do dia será o de se discutir a participação da cidadezinha na revolução que acabou por determinar o fim da opressão exercida por Ceausescu. O encaminhamento oferecido pelo diretor Corneliu Porumboiu acaba por revelar a maneira como a qual a civilização local encara seus problemas. Eles não acreditam muito em seu auto-aclamado heroísmo e a põem em dúvida. No filme, mais especificamente, tal contestação passa a surgir no momento da entrevista, em que um professor meio-alcoólatra e endividado e um velhinho de quase oitenta anos são replicados por seus atos no momento histórico (1989) pelos espectadores que participam com perguntas através do telefone. Toda essa seqüência do programa televisivo - cerca de metade do filme - chega a ser contruída com momentos de humor que beiram o antológico. A utilização do aposentado nos momentos frente às câmeras - que desfocam, se mexem, filmam o que não deveriam - é de uma felicidade incomum e, imagino, represente algo da carcerísitica da população local. Impossível não se rir - e muito - com a anciã figura.

    Mas todos os momentos precedentes e o final, revelam um diretor sensível com câmera, que sabe mostrar características físicas da região, empobrecida e fria - revelando um país bastante desconhecido para nós -, como se estivesse querendo mostrar as cicatrizes decorrentes da "bárbarie oficial". Filma as pessoas em seus lugares, em seus lares, revela um chinês sábio na sua simplicidade e atacado por xenofobismo em momentos de descontrole emocional, emociona quando persegue o carro que se desloca pela cidade gelada no aguardo da neve do natal e emociona mais ainda, quando vai fechando o filme com takes estáticos das ao anoitecer. Tem muito humor, mas muita revelação. Não faz de seu povo um povo "heróico"; mostra-o comum, como todos nós, mas ressalta suas peculiaridades e se aproveita delas para direcionar a essência do filme. Surpreendente trabalho de pormenores.

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    Por Cid Nayer - Cinequanon.art.br


  • 27.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "A Sensação de Ver" evoca o sentido da vida


    Quando está livre das amarras dos grandes estúdios e operando de forma independente, o cinema estadunidense apresenta filmes que parecem tudo, menos feitos nos Estados Unidos. Sai o produto, fica o cinema.

    O plano inicial de "A sensação de ver" convida justamente a esta reflexão. Durante longos minutos a câmera fica imóvel, mostrando um homem caído num gramado. Ao fundo, uma construção rústica de pedras. Aos poucos passa um lixeiro, que prefere não mexer com o homem. Depois, uma menina com algumas ovelhas, que também deixa pra lá. Por último, um menino de bicicleta, que apenas rouba o chapéu do sujeito e se vai. A lentíssima cena pede paciência e, apesar do silêncio, grita: este não é seu filme hollywoodiano de fim de semana.

    O homem no chão é Finn, um professor de inglês atormentado por uma tragédia. Em busca da resposta para uma pergunta aparentemente subjetiva - "por quê?" - ele abandona sua vida e família, entregando-se a um ofício totalmente novo e completamente ultrapassado, a venda de enciclopédias.

    O solitário circula por sua pacada cidadezinha puxando seu carrinho. Conforme encontros acontecem, vendas são realizadas e a audiência se aproxima da resposta, mesmo sem entender completamente a pergunta.

    David Strathairn vive o protagonista de maneira assombrosa. É quase impossível acreditar que o mesmo ator que vive o determinado jornalista de "Boa noite e boa sorte" - olhar penetrante, voz firme - transforma-se aqui no vendedor franzino, inseguro e curvado, com um jeito que lembra até Peter Sellers em "Muito além do jardim". Ele é acompanhado por um elenco igualmente competente, vivendo suas próprias buscas, sendo que um dos rostos é bastante conhecido do público, o de Ian Somerhalder. O Boone de Lost também realiza um ótimo trabalho como um jovem macambúzio, cumprindo pena comunitária e carregando suas próprias cruzes.

    O diretor e roteirista estreante Aaron J. Wiederspahn aproveita muito bem os talentos e recursos que tem em mãos e entrega um drama sensível e equilibrado. Não deve demorar muito e algum estúdio o tentará e o colocará no regime hollywoodiano, com um produtor nas costas, dizendo que a tal cena inicial - aquele belo atestado de independência comentado acima - é muito longa, que os 130 minutos não dão boa bilheteria, que a história é mal explicada, que precisa de um final feliz, de censura mais baixa...

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    Por Érico Borgo - Omelete


  • 25.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    Khoo vê o amor no vazio da comunicação em "Fica Comigo"


    Incomunicabilidade já foi, por muito tempo, a palavra-chave utilizada para designar a expressão, no cinema, do mal-estar da modernidade, central, em particular, na obra de Michelangelo Antonioni. Para nós, contemporâneos, imersos no reino da comunicação, que sentido adquiriu a não-comunicabilidade?

    O elogio que muito se faz a alguns filmes que chegam do Oriente se baseia na lucidez que eles contêm de compreender impasses da vida contemporânea. "Fica Comigo", terceiro longa de Eric Khoo, cineasta de Cingapura, vem se somar a esse mergulho na alma, que tanto produz fascínio, dos filmes de Wong Kar-wai, Hou Hsiao-hsien, Tsai Ming-liang, Jia Zhang-ke, Hong Sang-soo, entre outros.

    Pois o vazio nessas obras evoca, com o tempero contemplativo oriental, a problemática existencial exposta por Antonioni, mas a revê na perspectiva de uma época que se poderia definir como "a da comunicação ao alcance de todos".

    A beleza fundamental de "Fica Comigo" emana justamente do modo como Khoo lê a nossa contradição. A tal democracia da comunicação é relida pelo avesso, tendo o amor como o nexo que reúne as quatro histórias nada díspares que o filme narra.

    Um senhor viúvo permanece conectado à memória da mulher morta; duas garotas se conhecem pela internet e vivem uma paixão adolescente; um segurança glutão persegue platonicamente uma executiva.

    Em contraponto, o diretor insere uma não-ficção sobre uma senhora surda e cega que escreve suas memórias com a ajuda de um assistente social.
    As quatro histórias se elaboram a partir da vivência do amor, mas sua demonstração é feita pelo avesso: num caso, por meio da rejeição, nos outros, da ignorância, da desaparição e do abandono. Reduzido quase a pó, o sentimento subsiste através de formas novas e antigas de estabelecer comunicação: chats, torpedos, câmeras de vigilância, cartas manuscritas ou datilografadas.

    Paradigma da comunicação humana, o amor, quanto mais esvaziado, mais tem sua vigência reafirmada por essas parábolas, não através do culto romântico, mas extraindo do vazio a pura necessidade.

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    Por Sergio Rizzo - Folha de São Paulo


  • 24.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    Queda de ditador romeno é vista com humor em "Como Festejei o Fim do Mundo"


    Retratos do ditador romeno Nicolae Ceausescu (1918-1989) aparecem em ambiente escolar, como um Big Brother à espreita de crianças e jovens, no início de "Como Eu Festejei o Fim do Mundo". São imagens de um Ceausescu jovial, a sugerir que ainda se vive o início de seu período sangrento no governo.

    Pura ilusão, logo desfeita: estamos em 1989, o derradeiro dos quase 25 anos em que ele impôs ao país seu regime de terror. O próprio ditador já era um decrépito incapaz de notar que o barco afundava. Os usos e costumes, no entanto, ainda ecoavam os velhos tempos.

    Em seu primeiro longa-metragem como diretor, chancelado por Martin Scorsese e Wim Wenders como produtores executivos, o romeno Catalin Mitulescu (que ganhou a Palma de Ouro em Cannes com o curta "Trafic", em 2004) faz a anatomia da derrocada de Ceausescu, mas da perspectiva de uma criança, Lalalilu (Timotei Duma), e de sua irmã mais velha, Eva (Doroteea Petre).

    Ambos freqüentam uma escola cujo ambiente autoritário procura reproduzir os valores do regime. A "camarada professora" se impõe aos alunos como se fosse um delegado do Partido Comunista, e os jovens, estimulados a delatar e a perseguir colegas, banem Eva por causa de um episódio acidental de afronta simbólica ao poder.

    Em uma aula de música, adolescentes se preparam para uma cerimônia oficial e ensaiam uma canção cujos primeiros versos falam que "nosso país é nosso". Naquele momento, parece ironia. Mais um pouco, no entanto, e a letra vai adquirir caráter profético, devidamente trabalhado pelo filme. Ao examinar como o germe da ditadura encontra na escola um ambiente amplamente favorável à sua reprodução, Mitulescu se aproxima do albanês "Slogans" (2001), de Gjerji Xhuvani, abordagem bem-humorada do culto à figura de Enver Hoxha (1908-1985), que governou a Albânia com mão de ferro durante 40 anos.

    "Como Eu Festejei o Fim do Mundo" também encontra no humor a alternativa para tornar mais leve (e palatável a um público mais amplo) a leitura do contexto político. Lalalilu, seu dente de leite (destinado a lhe dar sorte em momento crucial da história) e os dois companheiros de travessuras estão ali para criar um tom onírico.

    Eva tem outra função: vítima do estado de coisas, tanto na escola quanto em casa, ela incorpora a consciência política em formação - alterna a companhia de dois jovens que buscam modos de afrontar o sistema, cada um à sua maneira- e o desejo de tocar a vida em outro quadrante. Não é ocasional que, entre as metáforas usadas por Mitulescu, as principais se refiram a meios de transporte: o trilho de trem que passa à margem de todos; uma carcaça de automóvel que leva seus passageiros a viagens imaginárias a outros países; e, por fim, um navio em alto-mar, símbolo de um tempo em que a palavra liberdade volta ao dicionário.

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    Por Sergio Rizzo - Folha de São Paulo


  • 23.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "C.R.A.Z.Y" retrata com dignidade as habituais dúvidas da adolescência


    Depois das enormes bilheterias no Canadá, C.R.A.Z.Y. - Loucos de amor continuou seu sucesso no mercado independente mundial. O filme ganhou vários prêmios em festivais e deu prestígio ao diretor Jean-Marc Vallée. Ele já está sendo visto como um possível candidato a fazer parte do seleto hall dos atuais cineastas canadenses mais relevantes, como David Cronenberg, Denys Arcand e Guy Maddin.

    O filme se inicia em 25 de dezembro de 1960, quando Zachary Beaulieu (atores Emile Vallée como criança e Marc-André Grondin como o adolescente) vem ao mundo. É o quarto entre cinco irmãos, todos meninos, cujas iniciais formam a palavra "crazy" (louco). O filme acompanha os 20 primeiros anos da vida de Zachary. A infância é marcada pelos aniversários natalinos em que seu pai (Michel Côté), invariavelmente, encerra a festa imitando Charles Aznavour. Sua a adolescência traz descoberta de uma sexualidade diferente e sua negação profunda para não decepcionar a família. E a maturidade, enfim, chega com uma libertadora viagem mística por Jerusalém, a cidade que sua mãe (Danielle Proulx) sempre sonhou conhecer.

    O projeto levou dez anos para ficar pronto. O roteiro foi escrito por Vallée e François Boulay, baseado nos diários de Boulay. O argumento também conta com passagens da vida pessoal do diretor. Especialmente as cenas da mãe devota e do pai apaixonado por música. Mesmo tendo sido escrito das experiências da dupla, o contexto será reconhecido por qualquer pessoa pertencente a uma família numerosa. E mesmo com essa premissa o filme não cai no melodrama. A história mistura de forma inteligente o sagrado e o profano, o pessoal e o universal. Interessante que o tema não se concentra na descoberta sexual, mas sim sobre o amor.

    Os pais não são retratados como vilões, mas como duas almas compassivas e honestas que realmente querem o melhor para seus filhos. São bons pais, em outras palavras, personagens críveis. Mas o tratamento para com os personagens não foi igual para todos. Vallée negligencia dois dos irmãos, que nem parecem estar no filme, já que surgem e somem na mesma rapidez.

    Mas isso não impediu de Vallée destilar toda a sua habilidade técnica para contar mais de 20 anos de história. Truques cinematográficos aumentam a carga dramática das cenas. Ele utiliza close-ups, ângulos diferenciados, slow-motion e charme nas imagens de pessoas fumando. A cenografia de Patrice Bricault-Vermette se encaixa perfeitamente à proposta visual. Tudo isso embalado por uma trilha sonora apaixonante com as músicas de Patsy Cline, David Bowie, Pink Floyd, Rolling Stones, Charles Aznavour e The Cure, entre outras feras.

    O resultado retrata com dignidade as habituais dúvidas que surgem na adolescência.

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    Por Mário Abbade - Omelete


  • 22.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "Princesas" evoca esperança diante da realidade decadente


    "Princesas" é um filme feito com coração sobre uma amizade entre duas prostitutas. O diretor espanhol Fernando Léon de Aranoa confirma sua habilidade de converter assuntos marginais em cinema comprometido com o social - um estilo inspirado no cineasta Ken Loach. Da mesma forma que seus dois filmes anteriores, Aranoa não estrutura seu longa no formato convencional e, desta forma, consegue realizar uma abordagem mais autêntica do assunto.

    Na trama, Caye vem de uma família de classe média espanhola que ignora a sua vida como prostituta. Ela está nessa profissão temporariamente, enquanto arrecada dinheiro para fazer um implante de silicone nos seios. Quando estiver mais voluptuosa, imagina ela, talvez consiga o amor de sua vida. Ela e outras profissionais do sexo passam o tempo em um salão de cabeleireiro reclamando das colegas imigrantes, que cobram barato e roubam seus clientes. Uma dessas estrangeiras é Zulema, dominicana que usa o dinheiro conseguido nas ruas para sustentar o filho, que continua em sua terra natal. Um dia, Caye encontra Zulema espancada e a leva ao hospital. A partir desse encontro nasce uma amizade.

    Conforme a trama se desenvolve descobrimos que as duas têm esperanças de um futuro melhor. Essa expectativa contrasta com uma realidade dolorosa, cheia de humilhações, abusos físicos e doenças. Ao conhecer Manuel (Luis Callejo), um técnico de computadores, Caye enxerga a possibilidade de ter uma vida normal. Já Zulema sonha em conseguir uma permissão para deixar de ser clandestina. Para isso é obrigada a aturar um funcionário do governo (Antonio Duran).

    Acertadamente, o cineasta espanhol não explora a decadência. Prefere deixar que ela surja espontaneamente, através do estilo de vida das protagonistas. Mas Aranoa tem uma visão otimista da realidade. Para ele, essas princesas continuam jovens em seus corações. E enquanto aguardam o príncipe que nunca aparecerá montado no seu cavalo branco, elas dependem uma da outra para alimentar seus sonhos. Esse tom de realismo é sustentado pelas ótimas atuações de Candela Pena (Tudo sobre a minha mãe) e Micaela Nevarez, nos papéis de Caye e Zulema.

    O roteiro foi escrito pelo próprio Aranoa e seu tem como único ponto fraco sua incapacidade de solucionar todas as questões levantadas. Um exemplo é a falta de explicação dos motivos que levaram Caye, uma mulher de classe média e de família estruturada, à prostituição. Fica difícil de acreditar por que ela escolheu viver dessa maneira. Um outro equivoco é a longa duração da projeção. Mas em linhas gerais, o filme cumpre a sua proposta, e faz tudo isso embalado pela guitarra de Manu Chao, que assina a trilha sonora.

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    Por Mário Abbade - Omelete


  • 20.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    Chabrol vê com sarcasmo engrenagem da corrupção em "A Comédia do Poder"


    O plano de abertura de "A Comédia do Poder" já vale o filme: um homem poderoso, denominado "o Presidente", conversa em seu escritório, dá ordens à secretária, fala no telefone celular, desce o elevador com outra secretária, mais ordens, mais celular, mais gente que se admira à sua passagem. Chega ao andar térreo e, quando se prepara para sair, recebe a ordem de prisão.

    Claude Chabrol entra nessa história para valer. O Presidente é o primeiro de uma lista de homens poderosos envolvidos com grossa corrupção (licitações, propinas etc.). Do outro lado, existe Isabelle Huppert, ou Jeanne Charmant-Killman, uma procuradora conhecida como "a Piranha" -e não por conta de suas atividades sexuais: é que ela agarra, morde, faz sangrar (aliás, sua vida pessoal é um fracasso).

    À medida que a procuradora escava o caso, aparecem inúmeros outros envolvidos. Uma coisa sem fim, que desemboca na cúpula do Judiciário. Se o caso é tão grave, por que comédia? O que há de cômico nisso?

    Certamente isso vem do sarcasmo com que Chabrol observa o mundo das altas finanças, das negociatas -enfim, isso que parece atualidade planetária- e do combate à corrupção.

    Mas isso é periférico. Mais do que tudo, Chabrol se interessa pela lógica, por seu vínculo íntimo com a cultura francesa. É a lógica que guia Charmant-Killman, a paixão por desvendar os elos da cadeia da corrupção.

    Ao mesmo tempo, o autor se interessa mais ainda por aquele momento em que a lógica se rompe, em que o programado sai dos eixos, vencido pelo acaso. É o que veremos no final-surpresa deste filme. Já era assim em seu "Os Primos" (1959). É assim aqui também.

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    Por Inácio Araujo - Folha de São Paulo