Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema!

22.6.07

Pernille Christensen raspa a panela do que sobrou do Dogma 95


Mais uma produção com cara de Dogma 95 - situação e impressão que ganha mais reforço ainda por ser obra que vem da Dinamarca, país natal do movimento que se dizia "aquele que vinha para resgatar a pureza e a essência do cinema". À parte discutir novamente a sinceridade nas intenções dos criadores do movimento, que causou um certo rebuliço no meio dos cinéfilos e críticos mais engajados e atentos ao que passa ao seu redor - os que observam o cinema num aspecto mais amplo, mundial -, algumas más marcas parece que se fixaram de maneira quase indelével num grupo de observadores mais xiitas e de pouco bom humor. Além do Desejo (En Soap, 2006), então, dirigido pela quase novata Pernille Christensen, parece chegar propositalmente com o cheiro e as cores de seu país - e uma compreensão muito mais superficial do movimento inventado Lars Von Trier e Thomas Vinterberg - como bandeiras a serem defendidas a todo custo; inclusive com o sacrifício do bom cinema.

Quando as câmeras digitais passaram a ser utilizadas na confecção do cinema - isso muito recentemente - era evidente que seu maior mérito girava em torno do barateamento do filme. Junto com essa "vantagem", surgiu um leve e compreensível "modo trêmulo" nas imagens que assistíamos captadas através da nova técnica - o tamanho menor da câmera permitia uma utilização mais constante nas mãos, sem tripés, fato que imprimia maior dinâmica e urgência ao novo cinema que se apresentava sem cerimônia a nós com o Dogma. Bem, nesse filme da diretora Pernille, toda essa má compreensão daquele evento nascido no distante 1995 se faz cartão de visita, tão exageradamente e tão descaradamente que a vontade real foi a de sair correndo da sala de cinema, intenção que só não concretizei por dever de ofício.

A câmera treme e teima em escapar do objeto a ser focado. Existe uma narração atípica, que não deixa dúvida alguma se tratar de homenagem à trilogia iniciada com Dogville (2003), pelo teor afetadamente fabulesco assumido - no caso de Além do Desejo, a homenagem passa a ser explícita a Von Trier, mesmo devida e oficialmente afastado do movimento, num típico exemplo que desmascara uma compreensão equivocada das razões dele, anteriormente, e como tentativa de colocá-lo sobre um altar, para ser não questionado em suas opiniões e atitudes; afinal, estamos girando em trono de "dogmas".

A história? Ah, a história fala de uma mulher, Charlotte (Trine Dyrholm), madura em busca de uma nova vida, do seu relacionamento complexo com o novo vizinho, Veronica (David Dencik), transexual e depressivo - não, não estou afirmando que sejam condições que caminham paralelas, somente descrevendo as características do personagem - e das insitentes investidas do antigo, perdido e violento companheiro, Kristian (Frank Thiel).

A atuação sem nenhum tipo de expressividade alterada da personagem feminina principal - a mesma cara e os mesmos olhos "esbugalhadinhos" o tempo todo; o mesmo sorrisinho bobo, idem (parece egressa da escola de atuação "Adriana Estevez") -, tudo isso e mais aquele "pouco" que remete o trabalho àquela "compreendida" Dinamarca dogmática (produção também da Suécia), denunciam que um filme falso está entrando em cartaz. O próprio mote da história parece perdido e desvirtuado no tempo. Imagino que não precisemos desse tipo de cinema. Mais modestamente, então: eu não preciso desse tipo de cinema e não recomendaria a algum amigo (apesar de não ser função minha recomendar; somente alertar).

Por Cid Nader - cinequanon.art.br