![]() Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema! |
22.6.07
Pernille Christensen raspa a panela do que sobrou do Dogma 95 Mais uma produção com cara de Dogma 95 - situação e impressão que ganha mais reforço ainda por ser obra que vem da Dinamarca, país natal do movimento que se dizia "aquele que vinha para resgatar a pureza e a essência do cinema". À parte discutir novamente a sinceridade nas intenções dos criadores do movimento, que causou um certo rebuliço no meio dos cinéfilos e críticos mais engajados e atentos ao que passa ao seu redor - os que observam o cinema num aspecto mais amplo, mundial -, algumas más marcas parece que se fixaram de maneira quase indelével num grupo de observadores mais xiitas e de pouco bom humor. Além do Desejo (En Soap, 2006), então, dirigido pela quase novata Pernille Christensen, parece chegar propositalmente com o cheiro e as cores de seu país - e uma compreensão muito mais superficial do movimento inventado Lars Von Trier e Thomas Vinterberg - como bandeiras a serem defendidas a todo custo; inclusive com o sacrifício do bom cinema.
Quando as câmeras digitais passaram a ser utilizadas na confecção do cinema - isso muito recentemente - era evidente que seu maior mérito girava em torno do barateamento do filme. Junto com essa "vantagem", surgiu um leve e compreensível "modo trêmulo" nas imagens que assistíamos captadas através da nova técnica - o tamanho menor da câmera permitia uma utilização mais constante nas mãos, sem tripés, fato que imprimia maior dinâmica e urgência ao novo cinema que se apresentava sem cerimônia a nós com o Dogma. Bem, nesse filme da diretora Pernille, toda essa má compreensão daquele evento nascido no distante 1995 se faz cartão de visita, tão exageradamente e tão descaradamente que a vontade real foi a de sair correndo da sala de cinema, intenção que só não concretizei por dever de ofício. A câmera treme e teima em escapar do objeto a ser focado. Existe uma narração atípica, que não deixa dúvida alguma se tratar de homenagem à trilogia iniciada com Dogville (2003), pelo teor afetadamente fabulesco assumido - no caso de Além do Desejo, a homenagem passa a ser explícita a Von Trier, mesmo devida e oficialmente afastado do movimento, num típico exemplo que desmascara uma compreensão equivocada das razões dele, anteriormente, e como tentativa de colocá-lo sobre um altar, para ser não questionado em suas opiniões e atitudes; afinal, estamos girando em trono de "dogmas". A história? Ah, a história fala de uma mulher, Charlotte (Trine Dyrholm), madura em busca de uma nova vida, do seu relacionamento complexo com o novo vizinho, Veronica (David Dencik), transexual e depressivo - não, não estou afirmando que sejam condições que caminham paralelas, somente descrevendo as características do personagem - e das insitentes investidas do antigo, perdido e violento companheiro, Kristian (Frank Thiel). A atuação sem nenhum tipo de expressividade alterada da personagem feminina principal - a mesma cara e os mesmos olhos "esbugalhadinhos" o tempo todo; o mesmo sorrisinho bobo, idem (parece egressa da escola de atuação "Adriana Estevez") -, tudo isso e mais aquele "pouco" que remete o trabalho àquela "compreendida" Dinamarca dogmática (produção também da Suécia), denunciam que um filme falso está entrando em cartaz. O próprio mote da história parece perdido e desvirtuado no tempo. Imagino que não precisemos desse tipo de cinema. Mais modestamente, então: eu não preciso desse tipo de cinema e não recomendaria a algum amigo (apesar de não ser função minha recomendar; somente alertar). Por Cid Nader - cinequanon.art.br 18.3.07
Comédia transmite o prazer de AllenLonga sobre jovem repórter que busca desvendar identidade de "serial killer" é simulacro de filme de investigação policial Woody Allen são pelo menos dois. Existe aquele cineasta grave, intelectual, que pode se inspirar em Dostoiévski ou Bergman e parece viver preocupado com o lugar que a história do cinema lhe reservará.
E existe o Woody Allen que não esquece sua origem de comediante e gosta de se divertir enquanto filma. Este último pode nos dar filmes irregulares, é verdade, nem sempre memoráveis, mas que nunca se confundem com os vôos cegos tão freqüentes na indústria do entretenimento. Woody sabe o que faz quando faz "Scoop - O Grande Furo", por exemplo, em que uma estudante de jornalismo é freqüentada pelo espírito de um grande repórter -já morto, evidentemente- que lhe dá pistas para resolver um tenebroso caso de "serial killer". Como estamos na Inglaterra, trata-se de um caso tipo Jack, o Estripador. A jovem repórter é Scarlett Johansson, e a primeira vez que ela "recebe" o repórter ela está na cabine em que um prestidigitador (Allen) executa seu truque de desmaterialização. Esse fato ligará os dois: a moça fará do mágico seu acompanhante, protetor etc. Ocorre que, em meio à onda de crimes, o finado repórter aponta como criminoso (com todo o conhecimento que se pode adquirir no além sobre essas coisas) um rapaz belo e riquíssimo (Hugh Jackman), filho de um lorde, portanto, membro da aristocracia. A partir daí, estamos no território da investigação. E de seus desastres. O primeiro e mais definitivo vem do fato de a garota se apaixonar pelo belo aristocrata. Mas, que importa essa falha profissional? O que Woody Allen parece nos dizer ao longo de todo este filme (e dos filmes como este que faz) é que talvez não convenha levar essas convenções tão a sério. Ou seja, seu filme não é um filme de investigação policial, mas uma espécie de simulacro consciente a nos lembrar que, se não é possível chegar à verdade (artística ou criminal), convém ao menos não fingir que estamos chegando. Nesse aspecto, o Woody Allen desses "filminhos irresponsáveis" é mais grave e mais interessante que o dos "grandes temas humanos". E talvez não seja por acaso que Woody Allen se permite, no final, basear a resolução do filme na mais completa inverossimilhança: temos a história de um criminoso capaz de calcular tudo, com exceção do óbvio. Solução só aparentemente tola, feita para chatear os "nossos amigos verossímeis", como diria Hitchcock. Pois uma solução que remonta a Fritz Lang, ao Lang de "Suplício de uma Alma" -o filme mais inverossímil de todos os tempos, mas também um dos mais verdadeiros. É claro que "Scoop" não é memorável como "Suplício". Mas é um filme que não finge ser mais inteligente do que é, e em que Woody Allen, sua equipe e atores parecem ter trabalhado com prazer que, afinal, nos transmitem. Por Inácio Araujo 31.10.06
SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
"Vitus" é um filme-família perfeito A comédia dramática Vitus, do diretor suíço Fredi M. Murer, é um filme-família perfeito.
Não entenda, porém, que esta afirmação é uma observação pejorativa sobre a qualidade da película. Pelo contrário... um ótimo filme do gênero, por mais formulaico e sem invencionices que seja, pode conquistar seu espaço até no coração do mais ranheta dos críticos. A trama, co-roteirizada pelo cineasta, é curiosa e inteligente, uma história de superação às avessas. Enquanto a maioria mostra pessoas almejando vencer suas limitações pessoais, esta apresenta um menino gênio lutando para ser normal. Dotado de inteligência muito acima da média, especialmente relacionada ao raciocínio lógico e musical, o menino Vitus parece predestinado a ser um pianista virtuoso. O problema é que, aos seis anos, ele já carrega enormes responsabilidades, como as exaustivas horas de prática diária, a tentativa de adequação, a exigência da mãe obsessiva (Julika Jenkins) e a ausência do pai workaholic (Urs Jucker). Seu único alívio são os fins de semana ao lado do avô marceneiro, homem simples que partilha com o neto a paixão pela aviação e o único que o trata como uma pessoa normal. Vitus é interpretado por dois atores mirins: Frabrizio Borsani, que o faz aos seis anos, e Teo Gheorghiu, que o vive já com 12 anos de idade. O primeiro é curioso e adorável, o segundo, assombroso em talento e interpretação - especialmente ao piano, já que ele é uma criança prodígio de verdade e foi selecionado para o papel entre alunos de uma famosa escola londrina de música, a Purcell School. Aos 14 anos ele já fala cinco línguas e toca piano desde os nove! Outra prova do talento dos meninos é o bom desempenho quando colocados ao lado do excelente ator suiço Bruno Ganz, ator de Asas do Desejo e A Queda, que vive o avô que sonha em ser piloto. Dividir a tela com um veterano como esse não é pra qualquer um. O diretor cativa também ao introduzir, lá pela metade, uma guinada na trama que dá uma nova direção ao filme. A idéia da superação que se desenhava fica em segundo plano quando a genialidade do garoto superdotado sofre uma impensada alteração. Dessa forma, Vitus segue cativante até o último quadro, jamais apelando ao choro fácil. Pelo contrário, a emoção chega através da música (a seqüência da orquestra é fenomenal e gravada durante um concerto de verdade) e das surpresas da catarse. Os 100 minutos de Vitus passam voando, embalados pela simpática lógica inocente do protagonista - que dispara frases como "a bolsa de valores é fantástica, você pode ganhar 1000% de lucro, mas só pode perder no máximo 100%" e faz sensacionais dissertações, como a que enumera as vantagens de se casar com uma mulher 10 anos mais velha. O filme pode não ser tão genial como seu protagonista, mas certamente é tão adorável quanto. Por Érico Borgo - Omelete 29.10.06
SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
"12:08 A Leste De Bucareste" é um surpreendente trabalho de pormenores Os romenos têm muito sobre o que discutir sobre seu passado. País constituído no meio da Europa Oriental por exilados políticos pelo regime do grande império romano, acabaram por criar uma nação um tanto atípica na região - de comportamento mais expansivo (ao modo latino) e idioma originado do latim. Em tempos mais recentes, também, tiveram a política como fator decisivo em seu desenvolvimento: dominados pelo império soviético acabaram por passa pelo infortúnio de terem sido subjugados e governados por um dos mais sangüinários ditadores da história recente: Nicolae Ceausescu. Em "12:08 Leste de Bucareste" o assunto se faz mote e revela a nós que, talvez, o país possa vir a se apoderar dele para discuti-lo por um bom tempo através de seu cinema.
Mas, diferentemente de nossa vizinha Argentina - que discute seu infortúnio ditatorial em uma de cada três produções -, ao menos nesse filme, o modo de encontrado para sua explicitação vem carregado de uma auto-ironia e humor bruto quase inacreditáveis. Num programa de televisão, meio mambembe, de uma pequena cidade localizada a leste da capital, o assunto do dia será o de se discutir a participação da cidadezinha na revolução que acabou por determinar o fim da opressão exercida por Ceausescu. O encaminhamento oferecido pelo diretor Corneliu Porumboiu acaba por revelar a maneira como a qual a civilização local encara seus problemas. Eles não acreditam muito em seu auto-aclamado heroísmo e a põem em dúvida. No filme, mais especificamente, tal contestação passa a surgir no momento da entrevista, em que um professor meio-alcoólatra e endividado e um velhinho de quase oitenta anos são replicados por seus atos no momento histórico (1989) pelos espectadores que participam com perguntas através do telefone. Toda essa seqüência do programa televisivo - cerca de metade do filme - chega a ser contruída com momentos de humor que beiram o antológico. A utilização do aposentado nos momentos frente às câmeras - que desfocam, se mexem, filmam o que não deveriam - é de uma felicidade incomum e, imagino, represente algo da carcerísitica da população local. Impossível não se rir - e muito - com a anciã figura. Mas todos os momentos precedentes e o final, revelam um diretor sensível com câmera, que sabe mostrar características físicas da região, empobrecida e fria - revelando um país bastante desconhecido para nós -, como se estivesse querendo mostrar as cicatrizes decorrentes da "bárbarie oficial". Filma as pessoas em seus lugares, em seus lares, revela um chinês sábio na sua simplicidade e atacado por xenofobismo em momentos de descontrole emocional, emociona quando persegue o carro que se desloca pela cidade gelada no aguardo da neve do natal e emociona mais ainda, quando vai fechando o filme com takes estáticos das ao anoitecer. Tem muito humor, mas muita revelação. Não faz de seu povo um povo "heróico"; mostra-o comum, como todos nós, mas ressalta suas peculiaridades e se aproveita delas para direcionar a essência do filme. Surpreendente trabalho de pormenores. Por Cid Nayer - Cinequanon.art.br 27.10.06
SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
"A Sensação de Ver" evoca o sentido da vida Quando está livre das amarras dos grandes estúdios e operando de forma independente, o cinema estadunidense apresenta filmes que parecem tudo, menos feitos nos Estados Unidos. Sai o produto, fica o cinema.
O plano inicial de "A sensação de ver" convida justamente a esta reflexão. Durante longos minutos a câmera fica imóvel, mostrando um homem caído num gramado. Ao fundo, uma construção rústica de pedras. Aos poucos passa um lixeiro, que prefere não mexer com o homem. Depois, uma menina com algumas ovelhas, que também deixa pra lá. Por último, um menino de bicicleta, que apenas rouba o chapéu do sujeito e se vai. A lentíssima cena pede paciência e, apesar do silêncio, grita: este não é seu filme hollywoodiano de fim de semana. O homem no chão é Finn, um professor de inglês atormentado por uma tragédia. Em busca da resposta para uma pergunta aparentemente subjetiva - "por quê?" - ele abandona sua vida e família, entregando-se a um ofício totalmente novo e completamente ultrapassado, a venda de enciclopédias. O solitário circula por sua pacada cidadezinha puxando seu carrinho. Conforme encontros acontecem, vendas são realizadas e a audiência se aproxima da resposta, mesmo sem entender completamente a pergunta. David Strathairn vive o protagonista de maneira assombrosa. É quase impossível acreditar que o mesmo ator que vive o determinado jornalista de "Boa noite e boa sorte" - olhar penetrante, voz firme - transforma-se aqui no vendedor franzino, inseguro e curvado, com um jeito que lembra até Peter Sellers em "Muito além do jardim". Ele é acompanhado por um elenco igualmente competente, vivendo suas próprias buscas, sendo que um dos rostos é bastante conhecido do público, o de Ian Somerhalder. O Boone de Lost também realiza um ótimo trabalho como um jovem macambúzio, cumprindo pena comunitária e carregando suas próprias cruzes. O diretor e roteirista estreante Aaron J. Wiederspahn aproveita muito bem os talentos e recursos que tem em mãos e entrega um drama sensível e equilibrado. Não deve demorar muito e algum estúdio o tentará e o colocará no regime hollywoodiano, com um produtor nas costas, dizendo que a tal cena inicial - aquele belo atestado de independência comentado acima - é muito longa, que os 130 minutos não dão boa bilheteria, que a história é mal explicada, que precisa de um final feliz, de censura mais baixa... Por Érico Borgo - Omelete 25.10.06
SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Khoo vê o amor no vazio da comunicação em "Fica Comigo" Incomunicabilidade já foi, por muito tempo, a palavra-chave utilizada para designar a expressão, no cinema, do mal-estar da modernidade, central, em particular, na obra de Michelangelo Antonioni. Para nós, contemporâneos, imersos no reino da comunicação, que sentido adquiriu a não-comunicabilidade?
O elogio que muito se faz a alguns filmes que chegam do Oriente se baseia na lucidez que eles contêm de compreender impasses da vida contemporânea. "Fica Comigo", terceiro longa de Eric Khoo, cineasta de Cingapura, vem se somar a esse mergulho na alma, que tanto produz fascínio, dos filmes de Wong Kar-wai, Hou Hsiao-hsien, Tsai Ming-liang, Jia Zhang-ke, Hong Sang-soo, entre outros. Pois o vazio nessas obras evoca, com o tempero contemplativo oriental, a problemática existencial exposta por Antonioni, mas a revê na perspectiva de uma época que se poderia definir como "a da comunicação ao alcance de todos". A beleza fundamental de "Fica Comigo" emana justamente do modo como Khoo lê a nossa contradição. A tal democracia da comunicação é relida pelo avesso, tendo o amor como o nexo que reúne as quatro histórias nada díspares que o filme narra. Um senhor viúvo permanece conectado à memória da mulher morta; duas garotas se conhecem pela internet e vivem uma paixão adolescente; um segurança glutão persegue platonicamente uma executiva. Em contraponto, o diretor insere uma não-ficção sobre uma senhora surda e cega que escreve suas memórias com a ajuda de um assistente social. As quatro histórias se elaboram a partir da vivência do amor, mas sua demonstração é feita pelo avesso: num caso, por meio da rejeição, nos outros, da ignorância, da desaparição e do abandono. Reduzido quase a pó, o sentimento subsiste através de formas novas e antigas de estabelecer comunicação: chats, torpedos, câmeras de vigilância, cartas manuscritas ou datilografadas. Paradigma da comunicação humana, o amor, quanto mais esvaziado, mais tem sua vigência reafirmada por essas parábolas, não através do culto romântico, mas extraindo do vazio a pura necessidade. Por Sergio Rizzo - Folha de São Paulo 24.10.06
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Queda de ditador romeno é vista com humor em "Como Festejei o Fim do Mundo" Retratos do ditador romeno Nicolae Ceausescu (1918-1989) aparecem em ambiente escolar, como um Big Brother à espreita de crianças e jovens, no início de "Como Eu Festejei o Fim do Mundo". São imagens de um Ceausescu jovial, a sugerir que ainda se vive o início de seu período sangrento no governo.
Pura ilusão, logo desfeita: estamos em 1989, o derradeiro dos quase 25 anos em que ele impôs ao país seu regime de terror. O próprio ditador já era um decrépito incapaz de notar que o barco afundava. Os usos e costumes, no entanto, ainda ecoavam os velhos tempos. Em seu primeiro longa-metragem como diretor, chancelado por Martin Scorsese e Wim Wenders como produtores executivos, o romeno Catalin Mitulescu (que ganhou a Palma de Ouro em Cannes com o curta "Trafic", em 2004) faz a anatomia da derrocada de Ceausescu, mas da perspectiva de uma criança, Lalalilu (Timotei Duma), e de sua irmã mais velha, Eva (Doroteea Petre). Ambos freqüentam uma escola cujo ambiente autoritário procura reproduzir os valores do regime. A "camarada professora" se impõe aos alunos como se fosse um delegado do Partido Comunista, e os jovens, estimulados a delatar e a perseguir colegas, banem Eva por causa de um episódio acidental de afronta simbólica ao poder. Em uma aula de música, adolescentes se preparam para uma cerimônia oficial e ensaiam uma canção cujos primeiros versos falam que "nosso país é nosso". Naquele momento, parece ironia. Mais um pouco, no entanto, e a letra vai adquirir caráter profético, devidamente trabalhado pelo filme. Ao examinar como o germe da ditadura encontra na escola um ambiente amplamente favorável à sua reprodução, Mitulescu se aproxima do albanês "Slogans" (2001), de Gjerji Xhuvani, abordagem bem-humorada do culto à figura de Enver Hoxha (1908-1985), que governou a Albânia com mão de ferro durante 40 anos. "Como Eu Festejei o Fim do Mundo" também encontra no humor a alternativa para tornar mais leve (e palatável a um público mais amplo) a leitura do contexto político. Lalalilu, seu dente de leite (destinado a lhe dar sorte em momento crucial da história) e os dois companheiros de travessuras estão ali para criar um tom onírico. Eva tem outra função: vítima do estado de coisas, tanto na escola quanto em casa, ela incorpora a consciência política em formação - alterna a companhia de dois jovens que buscam modos de afrontar o sistema, cada um à sua maneira- e o desejo de tocar a vida em outro quadrante. Não é ocasional que, entre as metáforas usadas por Mitulescu, as principais se refiram a meios de transporte: o trilho de trem que passa à margem de todos; uma carcaça de automóvel que leva seus passageiros a viagens imaginárias a outros países; e, por fim, um navio em alto-mar, símbolo de um tempo em que a palavra liberdade volta ao dicionário. Por Sergio Rizzo - Folha de São Paulo 23.10.06
SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
"C.R.A.Z.Y" retrata com dignidade as habituais dúvidas da adolescência Depois das enormes bilheterias no Canadá, C.R.A.Z.Y. - Loucos de amor continuou seu sucesso no mercado independente mundial. O filme ganhou vários prêmios em festivais e deu prestígio ao diretor Jean-Marc Vallée. Ele já está sendo visto como um possível candidato a fazer parte do seleto hall dos atuais cineastas canadenses mais relevantes, como David Cronenberg, Denys Arcand e Guy Maddin.
O filme se inicia em 25 de dezembro de 1960, quando Zachary Beaulieu (atores Emile Vallée como criança e Marc-André Grondin como o adolescente) vem ao mundo. É o quarto entre cinco irmãos, todos meninos, cujas iniciais formam a palavra "crazy" (louco). O filme acompanha os 20 primeiros anos da vida de Zachary. A infância é marcada pelos aniversários natalinos em que seu pai (Michel Côté), invariavelmente, encerra a festa imitando Charles Aznavour. Sua a adolescência traz descoberta de uma sexualidade diferente e sua negação profunda para não decepcionar a família. E a maturidade, enfim, chega com uma libertadora viagem mística por Jerusalém, a cidade que sua mãe (Danielle Proulx) sempre sonhou conhecer. O projeto levou dez anos para ficar pronto. O roteiro foi escrito por Vallée e François Boulay, baseado nos diários de Boulay. O argumento também conta com passagens da vida pessoal do diretor. Especialmente as cenas da mãe devota e do pai apaixonado por música. Mesmo tendo sido escrito das experiências da dupla, o contexto será reconhecido por qualquer pessoa pertencente a uma família numerosa. E mesmo com essa premissa o filme não cai no melodrama. A história mistura de forma inteligente o sagrado e o profano, o pessoal e o universal. Interessante que o tema não se concentra na descoberta sexual, mas sim sobre o amor. Os pais não são retratados como vilões, mas como duas almas compassivas e honestas que realmente querem o melhor para seus filhos. São bons pais, em outras palavras, personagens críveis. Mas o tratamento para com os personagens não foi igual para todos. Vallée negligencia dois dos irmãos, que nem parecem estar no filme, já que surgem e somem na mesma rapidez. Mas isso não impediu de Vallée destilar toda a sua habilidade técnica para contar mais de 20 anos de história. Truques cinematográficos aumentam a carga dramática das cenas. Ele utiliza close-ups, ângulos diferenciados, slow-motion e charme nas imagens de pessoas fumando. A cenografia de Patrice Bricault-Vermette se encaixa perfeitamente à proposta visual. Tudo isso embalado por uma trilha sonora apaixonante com as músicas de Patsy Cline, David Bowie, Pink Floyd, Rolling Stones, Charles Aznavour e The Cure, entre outras feras. O resultado retrata com dignidade as habituais dúvidas que surgem na adolescência. Por Mário Abbade - Omelete 22.10.06
SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
"Princesas" evoca esperança diante da realidade decadente "Princesas" é um filme feito com coração sobre uma amizade entre duas prostitutas. O diretor espanhol Fernando Léon de Aranoa confirma sua habilidade de converter assuntos marginais em cinema comprometido com o social - um estilo inspirado no cineasta Ken Loach. Da mesma forma que seus dois filmes anteriores, Aranoa não estrutura seu longa no formato convencional e, desta forma, consegue realizar uma abordagem mais autêntica do assunto.
Na trama, Caye vem de uma família de classe média espanhola que ignora a sua vida como prostituta. Ela está nessa profissão temporariamente, enquanto arrecada dinheiro para fazer um implante de silicone nos seios. Quando estiver mais voluptuosa, imagina ela, talvez consiga o amor de sua vida. Ela e outras profissionais do sexo passam o tempo em um salão de cabeleireiro reclamando das colegas imigrantes, que cobram barato e roubam seus clientes. Uma dessas estrangeiras é Zulema, dominicana que usa o dinheiro conseguido nas ruas para sustentar o filho, que continua em sua terra natal. Um dia, Caye encontra Zulema espancada e a leva ao hospital. A partir desse encontro nasce uma amizade. Conforme a trama se desenvolve descobrimos que as duas têm esperanças de um futuro melhor. Essa expectativa contrasta com uma realidade dolorosa, cheia de humilhações, abusos físicos e doenças. Ao conhecer Manuel (Luis Callejo), um técnico de computadores, Caye enxerga a possibilidade de ter uma vida normal. Já Zulema sonha em conseguir uma permissão para deixar de ser clandestina. Para isso é obrigada a aturar um funcionário do governo (Antonio Duran). Acertadamente, o cineasta espanhol não explora a decadência. Prefere deixar que ela surja espontaneamente, através do estilo de vida das protagonistas. Mas Aranoa tem uma visão otimista da realidade. Para ele, essas princesas continuam jovens em seus corações. E enquanto aguardam o príncipe que nunca aparecerá montado no seu cavalo branco, elas dependem uma da outra para alimentar seus sonhos. Esse tom de realismo é sustentado pelas ótimas atuações de Candela Pena (Tudo sobre a minha mãe) e Micaela Nevarez, nos papéis de Caye e Zulema. O roteiro foi escrito pelo próprio Aranoa e seu tem como único ponto fraco sua incapacidade de solucionar todas as questões levantadas. Um exemplo é a falta de explicação dos motivos que levaram Caye, uma mulher de classe média e de família estruturada, à prostituição. Fica difícil de acreditar por que ela escolheu viver dessa maneira. Um outro equivoco é a longa duração da projeção. Mas em linhas gerais, o filme cumpre a sua proposta, e faz tudo isso embalado pela guitarra de Manu Chao, que assina a trilha sonora. Por Mário Abbade - Omelete 20.10.06
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Chabrol vê com sarcasmo engrenagem da corrupção em "A Comédia do Poder"Claude Chabrol entra nessa história para valer. O Presidente é o primeiro de uma lista de homens poderosos envolvidos com grossa corrupção (licitações, propinas etc.). Do outro lado, existe Isabelle Huppert, ou Jeanne Charmant-Killman, uma procuradora conhecida como "a Piranha" -e não por conta de suas atividades sexuais: é que ela agarra, morde, faz sangrar (aliás, sua vida pessoal é um fracasso). À medida que a procuradora escava o caso, aparecem inúmeros outros envolvidos. Uma coisa sem fim, que desemboca na cúpula do Judiciário. Se o caso é tão grave, por que comédia? O que há de cômico nisso? Certamente isso vem do sarcasmo com que Chabrol observa o mundo das altas finanças, das negociatas -enfim, isso que parece atualidade planetária- e do combate à corrupção. Mas isso é periférico. Mais do que tudo, Chabrol se interessa pela lógica, por seu vínculo íntimo com a cultura francesa. É a lógica que guia Charmant-Killman, a paixão por desvendar os elos da cadeia da corrupção. Ao mesmo tempo, o autor se interessa mais ainda por aquele momento em que a lógica se rompe, em que o programado sai dos eixos, vencido pelo acaso. É o que veremos no final-surpresa deste filme. Já era assim em seu "Os Primos" (1959). É assim aqui também. Por Inácio Araujo - Folha de São Paulo 3.9.06
Gil Kenan e o terror animado de A Casa MonstroDiretor que é cria de Spielberg e Zemeckis fala das técnicas que usou para atrair platéias infanto-juvenis Gil Kenan é um jovem diretor, não tão jovem assim. Já passou dos 30, mas o corpinho continua de 20. Ele acha graça da piada, como se nunca a tivesse ouvido. O repórter do Estado encontra-se com Kenan num resort da Baja Califórnia, onde a Sony reuniu jornalistas para a Cine Fiesta Del Mar, mostrando imagens de sua nova produção, especialmente da nova divisão do estúdio para animação. Kenan conversa com o repórter por causa de A Casa Monstro, que estréia hoje no País, voltado a um público infanto-juvenil que curte o terror e terá agora essa alternativa. Mas o desenho dele não foi feito na divisão de animação da Sony. Foi um projeto paralelo, que chega simultaneamente aos cinemas.
Kenan é cria de Robert Zemeckis e Steven Spielberg. Ele fez, na faculdade, um curta de diplomação que Spielberg e Zemeckis assistiram. Gostaram tanto que o chamaram para assumir A Casa Monstro. A casa assombrada se constitui numa vertente específica do cinema de terror. Existem vários filmes que poderiam ilustrar o que acaba de ser dito, mas Kenan não vacila quando o repórter lhe pergunta se tem alguma preferência ou se algum filme da tendência o marcou mais. "Gosto muito daquele animador francês, o René Laloux, que fez O Planeta Selvagem, mas quem realmente me ajudou em A Casa Monstro foi Hitchcock. A casa de Psicose, aquela casa sinistra e aterradora, foi o modelo da minha casa monstro." Na trama, garoto fica aos cuidados de uma babá, quando seus pais partem em viagem de férias. O pequeno herói está em pleno rito de passagem para se tornar adulto. Tem um amiguinho que só pensa em se fantasiar para ganhar doces no Halloween. Surge uma garota esperta. O trio investiga essa casa assustadora, que devora as pessoas. A Casa Monstro foi lançado nos EUA e no México em duas versões - 3-D e 2-D. A segunda é a que chega aos cinemas brasileiros. A 3-D é melhor, porque muitos efeitos parecem ter sido feitos para o formato, embora Kenan jure que não. Ele trabalhou com a técnica chamada de "motion capture", na qual atores, com sensores espalhados pelo corpo, fornecem a base para o movimento dos personagens. O sistema consiste em captar o movimento com a ajuda do computador. Maggie Gyllenhaal forneceu a base para a babá, o que pode ser facilmente identificado. Lembram de Kathleen Turner? A sexy mulher fatal de Corpos Ardentes, de Lawrence Kasdan, virou a mamãe que é de morte, no terror cult de John Walters. Kathleen forneceu a base para a casa. "É uma mulher muito fina e doce que se divertiu bastante fazendo o papel", explica o diretor. Seu tema é o que se ganha (e perde) na passagem para a vida adulta. É o mesmo de Lucas, Um Intruso no Formigueiro, outra animação (da Warner) que estréia em breve. Kenan não se considera um animador, O próximo filme será em live action. "Sou muito jovem para me prender a um formato", diz. Por Luis Carlos Merten (Estado de São Paulo) Organizações Tabajara vão parar no tribunalNovo filme da turma do Casseta, Seus Problemas Acabaram, que chega a 180 salas, usa julgamento para parodiar tudo e todos Elas estão sob suspeita - as Organizações Tabajara, que formam o maior conglomerado não monopolista do mundo. Onde isso poderia ocorrer? Só num filme do Casseta e Planeta, claro. Estréia hoje a nova produção do grupo de humoristas mais anárquico da TV brasileira. Inicialmente, deveria se chamar só Seus Problemas Acabaram, mas aí alguém deve ter se dado conta de que ele serve para um milhão de filmes e acrescentou o Casseta & Planeta. Agora, sim, você sabe do que se trata. O julgamento das Organizações Tabajara começa em 180 salas de todo o País. Procure seu lugar no tribunal, isto é, na sala, mais próxima de você. A diversão é garantida.
Os problemas, na verdade, estão começando, diz Hélio De La Peña e logo ele, rindo, se corrige - "Não; começaram quando a gente decidiu fazer o filme. Agora espero que esteja começando a solução." Fazer um filme no Brasil é sempre difícil, mas colocá-lo no mercado talvez seja uma dificuldade maior ainda. Bem ou mal, existem as leis de patrocínio que possibilitam a realização dos filmes. O problema é que o cinema brasileiro é estrangeiro na própria casa. O mercado, no País, é formatado para a produção de Hollywood. Nem a marca da Globo, associada a um filme, consegue garantir que ele fará sucesso. O primeiro filme dos Casseta, A Taça do Mundo É Nossa, fez cerca de 800 mil espectadores nas salas. É um número expressivo - só para comparar, este ano, tirando-se o campeão Se Eu Fosse Você, de Daniel Filho, todos os demais filmes juntos não devem ter dado isso -, mas, face à exposição do grupo na Globo, o resultado foi considerado um fracasso. De La Peña e o próprio diretor José Lavigne explicam - "A gente quis fazer o filme diferente do nosso trabalho na TV", diz De La Peña. O público se ressentiu - no segundo, Lavigne esclarece, "voltamos ao espírito do programa". Que humor é esse? É o escracho, a paródia. A arte, nada sutil do Casseta e Planeta, consiste em fazer humor em cima dos assuntos do cotidiano. Pode ser a política, o esporte, a novela. Se está em sintonia com o público, o grupo se apropria e escracha. Foram 18 meses escrevendo o roteiro de Casseta & Planeta - Seus Problemas Acabaram. Há, como se diz, uma trama e um formato, o do filme de tribunal, muito freqüente na produção de Hollywood. "Na TV, a gente volta e meia tem um convidado. No filme, usamos o advogado idealista do Murilo Benício para amarrar os esquetes." Pois o humor de Casseta & Planeta - Seus Problemas Acabaram é episódico, bebendo em várias fontes. Você vai identificar elementos de Trainspotting - Sem Limite (o banheiro mais podre da história do cinema), American Pie (as várias sugestões de sexo) e Cidade de Deus. Em busca de evidências que possam servir no tribunal, Maria Paula, que assessora o advogado Murilo, pergunta e ela própria responde - "Quem sabe das coisas? Os taxistas." Ambos pegam o primeiro táxi e o sujeito diz que, se o filme é nacional, tem de ter problema social. E ruma para a Cidade de Deus, o que possibilita cenas hilariantes que parodiam o filme famoso de Fernando Meirelles. Nada, em Seus Problemas Acabaram, foge às idéias associadas à marca Casseta e Planeta. O humor é escatológico, com freqüência grosseiro, mas não é assim que o público gosta na TV? De La Peña não cospe no programa, mas prefere o cinema pelo simples fato de que ele pode se desvincular um pouco do imediatismo e da urgência da TV. Pode ser mais elaborado e o humor, mesmo quando envolve improvisação, tem de ser muito bem preparado. A nota triste foi a morte de Bussunda em junho. "Não era só um companheiro de trabalho. Era um amigo, um irmão", define De La Penã. Bussunda participou do roteiro desde a primeira hora. Suas contribuições, além de sua cara, estão na tela. "A gente ia estar muito mais feliz com ele compartilhando este momento", dizem De La Peña e Lavigne. Por Luis Carlos Merten (Estado de São Paulo) 11.7.06
Sem-Floresta, mas cheios de encantoInteligente e bem executado, novo desenho da DreamWorks faz crítica da alienação e consumismo em versão para crianças Em 1969, Michelangelo Antonioni fez nos EUA um de seus filmes mais polêmicos - Zabriskie Point, sobre a juventude contestadora que na época ainda pregava o binômio paz e amor. A censura do regime militar no Brasil implicou especialmente com uma cena, que levou o filme a ser proibido. É aquela em que a alienação dos jovens virava ímpeto revolucionário - a explosão do refrigerador, encarado como símbolo de uma sociedade massificada e consumista. As crianças não poderão fazer esta ponte e é possível que a maioria dos adultos também não a faça, mas não há como não pensar em Zabriskie Point quando o guaxinim e seus amigos conseguem penetrar na casa de Os Sem-Floresta e ele lhes aponta aquele monumento - o refrigerador. Aberta a porta, é um mundo de guloseimas que se oferece aos personagens da nova animação da DreamWorks. Oferece e desoferece, porque a busca por comida se revela um pesadelo no novo trabalho de Tim Johnson, o diretor de FormiguinhaZ.
Escritas por Michael Fry e ilustradas por T. Lewis, as tiras de Over the Hedge (Os Sem-Floresta) surgiram em 1995 e, nestes 11 anos, formaram um público cativo nos muitos países em que são publicadas. Como Fry gosta de dizer sobre seus personagens: "Eles comem para viver; nós vivemos para comer. Eles pegam aquilo que precisam e usam o que pegam; nós pegamos o que queremos e depois não queremos mais. Na verdade, nós, os humanos, somos as criaturas mais esquisitas da Terra." A crítica da alienação e do consumismo que já estava em Antonioni volta agora em versão para crianças, mas com atrativos suficientes para intrigar e despertar o espírito crítico dos adultos. Na abertura de Os Sem-Floresta, o guaxinim, R.J., coloca sua moeda numa máquina, mas o esperado saquinho de batatas permanece preso na engrenagem. Ele tenta de tudo, sem conseguir soltá-lo. Em desespero, sobe numa ribanceira, de onde pretende provocar alguma espécie de hecatombe. Descobre a toca de um urso cheia de comida. O urso está em hibernação. R.J. prepara o botim, e já está quase saindo com toda a comida lá dentro quando descobre que deixou as suas batatinhas favoritas. Volta e é fatal. O urso acorda, ocorre um acidente que destrói toda a comida e J.R. ganha o prazo de uma semana para restituí-la, senão... Corte agora para o jabuti Verne, que está despertando de um longo inverno em companhia dos amigos - o esquilo aloprado Hammy, a gambá Estela e uma família de porcos-espinhos. Sua primeira providência, mal abrem os olhos e saem da toca, é iniciar a busca da comida para o próximo inverno. Revelam-se tão laboriosos quanto as formiguinhas da animação anterior de Johnson. Mas o grupo descobre que perdeu sua floresta, que deu lugar a um condomínio cercado por altos muros. Entra em cena R.J. para convencer os despreparados e tolos seguidores de Verne de que devem entrar no condomínio e assaltar a geladeira dos ricos. O grupo aceita fazer isso para ter o que comer (e sobreviver). R.J., para salvar a pele - vai dar a comida ao urso. Só que o condomínio é fechado, protegido por todo tipo de engenhoca de vigilância, incluindo um agente de maus bofes, e a dona da casa escolhida também não é nem um pouco amigável. E começa o pesadelo. Nos últimos anos, a Pixar, com Toy Story e Procurando Nemo, e a DreamWorks, com Shrek, têm sido as grandes renovadoras da animação americana. É possível e até preciso acrescentar uma terceira perna, a da empresa de Chris Wedges e Carlos Saldanha, que produziu A Era do Gelo e A Era do Gelo 2. Este último está chegando nos próximos dias ao mercado de DVD. É delicioso, mas não mais do que Os Sem-Floresta. O segredo da nova animação de Tim Johnson, escrita por Karey Kirkpatrick, está no fato de que ela explora o medo dos animais indefesos e, por meio dele, expõe as fantasias infantis diante das regras impostas pelo mundo adulto. A identificação das crianças é imediata - devolvida, em forma de espelho que reflete a capacidade de Johnson e Kirkpatrick de falarem também para o público adulto. O resultado é ótimo, mesmo que a defesa da família, no desfecho, assuma contornos demasiado sentimentais - mas eles sempre fizeram parte do universo da animação, de Disney a John Lasseter, o diretor de Carros, que também está em exibição nos cinemas brasileiros. Duas animações classe A para as férias escolares. O filme é muito legal, mas sua empatia vem dos bichos. Se você espera um novo Madagascar, vai ver que Os Sem-Floresta propõe outra coisa. A animação é crítica e fornece o que o diretor Johnson define como "comentário irônico sobre a sociedade de consumo". E nada é forçado - isso faz parte do contexto da história. Tudo é muito inteligente e bem executado, mas a empatia do filme vem da qualidade dos animais. O guaxinim, o jabuti, a gambá e seu namorado, o gato persa que habita a casa - a eliminação das diferenças é tema obrigatório de toda boa animação atual -, são todos divertidos. Animados, sem trocadilho, por esses heróis, o novo desenho da DreamWorks decola para seduzir. Sua arma é ser, acima de tudo, encantador. Por Luiz Carlos Merten - Estado de São Paulo 16.4.06
Selvagem está longe de ser um marco da animação Algo que sempre será lembrado hoje em dia sempre que os estúdios Disney lançam uma animação digital é: será que um dia eles sobreviverão sem a Pixar? Isso porque todas os longas em animação que tiveram sucesso foram em parceria entre essas duas empresas. E, se depender de Selvagem, não. Isso porque o filme peca em roteiro por mostrar uma verdadeira colcha de retalhos, com referência a várias outras animações do gênero. Selvagem pode ser definido como o encontro entre Madagascar (2005) e Procurando Nemo (2003) sem a graça e a qualidade na animação de as produções anteriores têm.
Sansão (voz de Kiefer Sutherland na versão original) é a estrela do zoológico de Nova York, conquistado a todos com seu rugido selvagem. Mas, Ryan, seu filho adolescente (se é que podemos usar este termo em animais), ainda tem um rugido desafinado. Mesmo sabendo que com a idade ele encontrará seu lado selvagem como o do pai, o pequeno leão resolve fugir à floresta para poder se tornar um adulto forte como o pai. Sansão, então, vai atrás do atrás do filho, aventurando-se ao lado de um grupo bem peculiar de amigos, formado pela girafa Bridget (voz de Flávia Alessandra na versão brasileira), o esquilo Benny (voz de Luigi Baricelli na versão brasileira), o coala mal-humorado Nigel e a simpática cobra Kazar. O filme atribui sentimentos e atitudes humanas aos animais, o que é moda entre as animações modernas, o que os aproxima ao espectador. A animação acompanha, não sendo tão fiel, visualmente, à realidade. Falsa, dá a impressão que são animais de pelúcia no meio da floresta, dando à produção um aspecto de fantasia. Se encarado dessa forma, ponto positivo a Selvagem - que levou mais de um milhão de horas para ficar pronto. Vale citar, também, as primeiras cenas, quando Sansão conta uma de suas aventuras na floresta: são maravilhosas, de encher os olhos. Mas o que mais incomoda é a sensação de déjà vu tamanha previsibilidade do roteiro, pois, apesar da idéia do longa ter nascido há dez anos, ele mais parece uma reciclagem de animações já lançadas. Apesar disso, os personagens principais são bem construídos. Como é típico em animações com animais, há um coadjuvante que rouba a cena: o coala mal-humorado Nigel. Pode apostar: suas piadas são as melhores. Selvagem é o primeiro longa-metragem dirigido por Steve "Spaz" Williams - veterano em efeitos digitais. O filme está longe de ser um marco na animação, nem mesmo coloca o nome da Disney entre os melhores estúdios de animação da atualidade. Pode ser classificado, no máximo, como "bonitinho". Mas, como a maioria dos desenhos, serve como entretenimento infantil - talvez até adulto, caso ele esteja com boa vontade durante a sessão. Por Angela Bito - Yahoo Movies 26.1.06
O Cinema FantásticoParte 5: A Consagração de Peter JacksonEm 1986, Sigourney Weaver foi indicada como melhor atriz por "Aliens - O Resgate", continuação de James Cameron de "Aliens - O Oitavo Passageiro", que ela mesma havia estrelado e sido esquecida para o prêmio. A fita concorreu a 6 OSCARs e no final só levou os óbvios Efeitos Sonoros e Visuais. Depois nenhum filme de fantasia foi indicado nesta década. Curiosamente, foi nesse mesmo período que surgiu o filme de terror que mais levou OSCARs, "O Silêncio dos Inocentes". O filme de Jonathan Demme que imortalizou o cruel e impiedoso Hannibal "Canibal" Lecter, ganhou 5 OSCARs e justamente os mais importantes: Filme, Diretor, Ator (Anthony Hopkins), Atriz (Jodie Foster) e Roteiro adaptado. Embora hoje seja classificado como terror, na época as pessoas não tiveram essa percepção. Não sabiam como identificá-lo, já que de certa forma criava um genero novo. Talvez por isso ganhou. Os anos 90 chegaram e infelizmente os filmes de fantasia não os acompanharam devidamente. Os filmes de terror eram raros e de certa forma os de ficção também. Nesse período, somente "Ghost - Do outro Lado da Vida" e "A Bela e a Fera", tiveram indicações. O Primeiro ganhou coadjuvante para Whoopi Goldberg e roteiro original e o segundo foi o primeiro desenho animado da história do cinema a ser indicado na categoria principal. Logicamente filmes importantes apareceram, como "Drácula de Bram Stoker" de Coppola e a revolução digital "O Exterminador do Futuro 2" e "Jurassic Park", onde Spielberg mostrou que os dinossauros não estavam tão extintos como pensávamos. Os filmes de fantasia voltaram à moda em 1996, graças ao sucesso de "Independence Day", sobre uma invasão alienígena e "Pânico" onde se brincava com os clichês dos filmes de terror. O auge da década foi em 1999. Onde Stephen Sommers recriou um clássico monstro da Universal em "A Múmia", George Lucas voltou à sua ópera espacial em "Guerra nas Estrelas: Episódio I - A Ameaça Fantasma", os irmãos Wachowski surpreenderam o mundo com "Matrix" numa mistura de ficção e kung-fu e M. Night Shyamalan com seu garoto que vê gente morta em "O Sexto Sentido". O novo milênio chegou e os filmes de fantasia continuam com seus altos e baixos. A trilogia de J. R. Tolkien, "O Senhor dos Anéis", tida como obra literária máxima da fantasia, finalmente foi para os cinemas. A primeira parte, "A Sociedade do Anel" recebeu 13 indicações e só ganhou 4: Fotografia, maquiagem, efeitos especiais e trilha musical. Novamente levou apenas os técnicos. A segunda parte , "As Duas Torres" recebeu 6 indicações sendo muito boicotada em algumas categorias (como Maquiagem por exemplo, que insistiu que o filme já havia sido premiado anteriormente, o que naturalmente é um absurdo!), dois quais só ganhou 2: Edição de Som e Efeitos Especiais. E finalmente, depois de 75 anos de premiação, a consagração! Sucesso de crítica e público, "O Retorno do Rei" recebeu 11 indicações e ganhou todos os Oscars pelo qual foi indicado: Filme, Direção, Roteiro Adaptado, Trilha Musical, Canção, Montagem, Som, Maquiagem, Efeitos Especiais, Direção de Arte e Figurino. Igualou-se a "Titanic" e "Ben-Hur" no recorde de prêmios da cerimônia. Foi o primeiro filme de fantasia da história do cinema a ganhar um OSCAR de melhor filme e bateu o recorde de "O Último Imperador" no aproveitamento de indicações. (O filme de Bertollucci havia sido indicado em 9 categorias e ganho em todas). Têm mais: Das 30 indicações que a trilogia recebeu, levou 17 OSCARS, batendo o recorde que era da trilogia "O Poderoso Chefão". Levou 3 OSCARS consecutivos de Efeitos Especiais (!) e foi a primeira vez, no OSCAR, que uma terceira parte ganhou. No fundo, com todos os méritos e justiça. Apesar dos constantes sucessos de público e crítica, como foi comprovado ao longo destes posts, isso não quer dizer que o gênero esteja sendo reconhecido pela Academia. Muitos chegaram a ser indicados, mas poucos foram os prêmios, mesmo com a incontestável qualidade de certas obras. A postura da Academia permanece extremamente conservadora a este respeito. O que existe mesmo, é uma preferência por filmes dramáticos convencionais, talvez porque a grande maioria dos votantes sejam atores, que preferem grandes conflitos dramáticos em grandes personagens ao invés de efeitos visuais. Resta aos fãs continuar a apreciar e amar seus filmes de fantasia e esperar que um dia a Academia largue sua postura ultrapassada e passe a amá-los também... |